sábado, 18 de agosto de 2018

Acuso-me de viver no reino de uma mentira.
folhas,
presença,
passarinho,
canção...

Nada disso cabe num mundo onde nada rima.

Então, sacudo de minha cabeça estas notas que ousam me tocar em fermata.
Procuro, em vão, corresponder aos avisos.
Os compromissos me fazem crescer e crescer tem hora marcada o tempo todo.

Quando me sinto só, um somente em que a paz de um nevoeiro em nada supre.
Em nada encanta o por do sol da minha janela,
nem folhas, nem música, nem silêncio não me suprimem,
Lembro-me de uma mentira ideal.
Mentira ornamentada de desejo já bastante antigo e entristecido,
Um desejo cheirando a cômoda emperrada em casa de avó, ou de mãe, ou de quem quer que seja a desconhecida...
Em meu antiquário de mentiras, tendo só a mim como visitante,
Guarda-se uma única peça.
Minha ilusão caleidoscópica,
para todo o dia descorado que me doer como ideia.

terça-feira, 26 de junho de 2018

Percurso

Procuro, procuro, procuro...
solto,
consinto, 
sigo

O que sou eu,
dá um jeito de me achar.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Tristeza abstêmia.

Não me lembro se foi Platão ou Plotino ou Sócrates que disse que nascer, isto é, estar na vida, é de fato estar morto. Creio que eu tenha ouvido em alguma conferência essa afirmação de que nunca mais me esqueci. Sou alguém que tem grande facilidade pra se colocar triste. De repente, a tristeza mora ao lado. Mora em frente ou vem sentar-se junto de mim. Tomamos chá, comemos bolacha. Não assistimos a filmes nem a séries de hoje em dia. A tristeza é tão amiga íntima, que escrevo este texto com o "nós". A tristeza e eu. Eu e a tristeza. Tento me lembrar agora, quando foi que eu a conheci. Acho que desde que me conheço por criança.
Inspirada por Proust que aprendo a conhecer, aproveito sua visita para sondar, entender o que é que comigo se passa... E a tristeza de hoje - nem sempre acompanhada dele, mas, hoje sim, vem ver-me junto com um sono secular -  o que me faz lembrar  de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, Bernardo Soares. Eu bem poderia consultar algum caderninho para transcrever aqui suas palavras. Mas, como já disse, estou com sono e estou triste. Eu estou triste e estou com sono. E, é bem capaz que eu durma quando eu me virar pra ir atrás do caderninho. Aliás, já sinto um bocejo sem forma. É melhor deixar pra lá.
Uma vez, estava lendo as correspondências que a Cecília trocou com uma amiga. Lá foi a primeira vez que li o termo "distúrbios vagotônicos". Essa expressão me chamou tanto a atenção, que fui pesquisar mais a respeito pela internet afora. Descobri que Vinicius de Moraes sofria de vagotonia e Aracy de Almeida também. Eu poderia transcrever aqui o significado de "distúrbios vagotônicos", mas, estou com sono e nem sei mais se estou triste. É...a tristeza minha muda de cara, de roupa, de forma, de discurso: muitas vezes se transforma em música (mal tocada ou bem ouvida). A minha tristeza se transforma em texto que gosto e desgosto, às vezes se transforma em sono mesmo, mas, sua constância em mim se apodera de um enorme silêncio. Um silêncio que abre um livro qualquer de pintura ou de poesia.

O fato é que o fato de minha tristeza, hoje, veio ornado de gravata borboleta vermelha e paletó gris. Não estou certa se o acompanha o chapéu côco (é bem provável que o fato da tristeza seja completado do chapéu côco...) E muitos pensamentos aparecem...Eu poderia transcrever e discorrer aqui sobre a coleção favorita de pensamentos que, distraída e apaixonadamente desenvolvo. Mas, minha tristeza  - que, aliás, creio que já se sentou mais pra adiante porque entediada com toda essa expressão mal posta - mudou outra vez. Acho que até dobrou a esquina. Que esquina? Hum...deve de ser a do ângulo de palavras esquisitíssimas. O canto onde giram todas as incoerências. A esquina onde se espera o pasmo diante do nada que é estar morto quando se vive. Que coisa! E que coisa é lutar nessa experiência de morte da total integridade - que é viver -  com o intuito de manter minimamente a natureza íntegra. QUE COISA! Interessantíssimo tudo isso. É!
Bem, acho que não escrevi tudo o que queria,  muito menos do jeito que esperava! Mas, tudo bem também. Pelo menos, sinto-me menos desacompanhada da minha tristeza. Essa tristeza minha que jamais saiu pra comprar cigarros e nunca mais voltou!

terça-feira, 8 de maio de 2018

Entreato


Ter, na sombra,  aquela fidalguia da individualidade 
que consiste em não insistir em nada para com a vida.
(Livro do desassossego)




às vezes,

              não tenho paciência com os sons. Quaisquer.

me cansam também as imagens, como o sol com seu céu azul pontual

todo dia sempre belo,
e as flores minguam porque a terra se empoeira
e as folhas de verdes que eram, tornam-se cores dobradas, esquecidas pelo chão onde as formigas não passeiam.


É quando às vezes me sento, sob minha mão que sustenta a circunspecção dos músculos perplexos:
o que sei fazer de melhor é estar absorta.

Por-me sentada ao abrigo dos meus olhos, à sombra de cortinas castanhas fechadas, a qual para este sol lhe dá as costas.

Agora,
estou diante do inevitável deste instante, como partícipe das despedidas
e a impressão que tenho é que, dentro em breve, virão buscar a hora para colocá-la no pra sempre.

Chego antes das minhas lágrimas. Não sei se incomodadas com o imprevisto,
se ausentaram porque não mais inesperadas.

Indiferente.
As lágrimas me colecionam a todo momento
aguam a esperança que se perdeu do mapa guia das mágoas,
escorrem perdidas pelo átrio das solidões,
e depois voltam a secar.


quarta-feira, 2 de maio de 2018

Le guetteur mélancolique









Et toi mon coeur pourquoi bats-tu
Comme un guetteur mélancolique
J'observe la vie et la mort.

(Appollinaire)



E você meu coração por que bate você
Como um vigia melancólico
Eu observo a vida e a morte.






"Roda infantil" - Cândido Portinari,1932

domingo, 29 de abril de 2018

Trova do campo

A João Antonio Pires, meu pai.



A lágrima que escorre percorrendo não é de quentura triste.
Desta vez, cálida, molha meu rosto de um fino caminho ritmado
lentidão reta que, nem portanto sabendo do abismo para o qual se precipita,
desiste de umedecer minha face.

Nessa gota longínqua, do tamanho do meu pequeno rosto e do grande dos olhos,
cabe tanta música de saudade
cabem riachos, estradas de fim incerto, canções, melodias de um inocente céu estrelado.
cabe rima cujos versos só eu mesma entendo
mas que, na verdade, eu sempre ouvira.

 Agora sinto compreendendo - da amplidão de todo amor,
A síntese da sua poesia.
que é luar, árvores, canção
e que é fonte a da minha.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Recueil - Terre à bonheur, 1952





J'ai vu le menuisier
Tirer parti du bois.

J'ai vu le menuisier
Comparer plusieurs planches.

J'ai vu le menuisier
Caresser la plus belle.

J'ai vu le menuisier
Approcher le rabot.

J'ai vu le menuisier
Donner la juste forme.

Tu chantais, menuisier,
En assemblant l'armoire.

Je garde ton image
Avec l'odeur du bois.

Moi j'assemble des mots
Et c'est un peu pareil.

(Eugène Guillevic)

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