quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Bem-te-vi (Vovó presente)


"O olhar caiu dos seus olhos, e está no chão, com as outras pedras,"

(Cecília Meireles - "Orfandade")



Bem-te-vi (Vovó presente)

À Fernandinha Meireles


Ouço a voz da chuva que chega

molhando a tarde que vai embora

na carona das nuvens.


A voz da chuva canta comovida

as cinzas líquidas de meigas cantilenas.

Não é lamento, nem chaga

é movimento.


Minha ternura se afeiçoa tanto a teus sorrisos!

Clara dentre o cintilar variado 

de muitas espécies de fogo!


Vaga-lumes rubros, amarelos, 

e cintilações 

de eternidades muito antigas!


Agora, 

Minha ternura fica infinda, bem diante de mim!

Neste instante em que toda a música da vida e da morte

Te abençoa.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Àqueles que nos consolam - parte I (em prol da criatividade)

 Há muito tempo que percebo que encontro por aí algumas existências que me marcaram para o resto da minha vida. São pessoas com as quais encontro em situações que não imaginaria encontrá-las. Talvez, elas apareçam para me consolar da mesmice, para me dizer que a vida pode ser surpreendente (quando menos se espera).

Tento me lembrar desde quando isso me acontece...

Desde quando era criança?

Vizinhos...

Passantes...

Pessoas pelos trabalhos afora.


Jamais me esquecerei dos olhos azuis do Vô Dacunto - vizinho da casa onde moramos, enquanto a nossa estava sendo reformada... e de sua esposa, d. Maria. Por onde andarão esses dois, se já se encontram para trás e para frente do tempo?


E ainda tem o Elvis Jesus;

A doce senhora da saída do Pronto Socorro;

As damas do hospital - pelas quais nutro um amor eternizado e agradecido;

O passante que encontrei perto da Fontaine Wallace;

Os transeutes do metrô - africanos que mais parecem deuses;


E ainda tem mais gente! 


Essas lembranças merecem cada uma o seu texto.

Mas, hoje estou cansada, com relatório para fazer. E cumprir o prazo que os adultos, responsáveis e pagador de suas contas me sugerem.

Quis escrever essas palavras para que elas me consolem.

Para que eu não me torne "um escravo martirisado do tempo".

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Paris

 Monotemática. À primeira, segunda e terceira vistas muitos cafés.

Muitos. 

E a disponibilidade, cor e chamariz das cadeirinhas:

o mesmo também.

E parecem ser as mesmas pessoas que ali sentam e frequentam.

Monólogos que se encontram,

e o mesmo olhar absorvido pela imponente arquitetura

que é famosa e célebre

porque vi em algum livro de história de que não me lembro.

(Aí, são as falas  dos turistas.)

E muitas fotografias - obviamente dos celulares.

E muitas boinas ambulantes, acima de olhos sempre prontos para a próxima atração.


E por que amar este lugar?

Eu não sei... coisa legal e coisa chata tem n'importe où

não importa onde!

Eu não sei... o meu olhar também é atraído pelo ar, mas daquele que se coloca diante e além da fachada célebre! Que é muito bonita, por sinal.

Aquelas pedras que já viram tanta coisa e se ruinaram e se reconstituíram e estavam ali me reconhecendo...


Por que amar Paris? E saber que dela me enjôo?


O saguão d'Opéra Garnier, em que lá se encontram lojas e belos objetos para vender.

Cheira à vaidade. Tão somente.

Se ainda houvesse outras notas no topo daquele teto...

Mas havia?


Verde e o azul do céu.


E aquelas ruas?

Largas? Menos encantadoras. Pavimentos cansados, fartos, mas ainda assim, eternamente entregues a mais passantes!


E aquelas outras ruas? As menos largas?

Em que posso sentir um frio secular? 

De que gosto tanto por que bem sei que me espreita?


Eu amo demais o que não vejo de Paris. O que intuo o que me fala...

As descobertas anódinas que, ao que me parece, são tão singulares... quase uns idiotismos!


Les fils de Caïn
(Paul Maximilen Landowski, 1906?)





quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Redécouverte

 Je découvre que je me redécouvre.

Pleine de nouvels outils

invisibles et magiques

un peu fous

tant qu'il n'y ait pas de formes.


Juste de nouvelles présences de moi-même!

Une sorcière dont les enchantements

me font un peu peur


mais, seulement pour ce moment...



Brasil?

 Maciez no ar que é horizonte

de extrema luminosidade

com que os olhos ainda se habituam a ver e sentir.


Excesso de vida,

variedade desnessária de tamanhos sorrisos!

Vozes ensolaradas, uma hora ou outra, às vezes queimam.


Triste demais;

Alegre demais;

Colorido demais;

Desbotado demais;


Escasso demais;

Grande demais.



Continente de almas 

e de dores.

Invenção à revelia daquele

lá no longe!


Do outro Canto do Oceano!

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Tão somente metáforas

 Mostro-me a mim mesma,

por meio de metáforas.

Frankenstein,

Zumbi,

corredeira que deságua no meio da estrada de enxofre.


São tão somente metáforas

Professoras,

Profetisas,

Procissão das almas  de Todos os Santos.


Não as tema!

escute-as

contemple a técnica de pinceladas à maneira de Van Gogh!


Elas assustam!

E são tão belas...


terça-feira, 23 de setembro de 2025

Passarinho o bastante

 Depois de um certo tempo em paragens francesas, que tanto, tanto, mais tanto amo,

voltei pro Brasil um tanto quanto gonçalvina.

Senti falta dos passarinhos. Da profusão deles, na verdade.

Como de fato nossa terra é jovem, ela é, portanto, mais sons e barulhos.

É mesmo verdade a máxima " As aves que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá". Mesmo por que, não existem tantos passarinhos... O Velho Mundo é mais circunspecto, até no ar. Não que não seja alegre. É! De uma alegria mais silente, pousada, heroica.

A alegria pueril e absorvida pelo arco-íris na caneta esferógrafica é genuinamente brasileira. Bem como, o fato de dizer que amamos (o tempo todo). E que estamos felizes de estarmos juntos.

E a quantidade de passarinhos que voa veloz e inconsequente, no Brasil, canta a toda hora: 

Somos vivos! Somos meninos! Somos vivos! Somos meninos!  

Somos os meninos que brincam e dizem cantando e voando que somos felizes e vivos de tanto vôo.

Sentirei falta dos altivos corvos parisienses. Os que fazem seu petit déjeuner en plein air da carne morta de passarinho anônimo. São belas aves velhas! Mas, não são passarinhos!

Vimos algum bando de pardais e os familiares pombos. (Alguns enormes).

Mas, outra vez e de novo:

Não são os nossos passarinhos!


Os nossos, eles são passarinhos o bastante para cantar muito alto!