sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Diálogo com "Noções"

 Noções


Entre mim e mim, há vastidões bastantes

para a navegação dos meus desejos afligidos.


Descem pelas águas minhas naves revestidas de espelhos.

Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.


Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,

só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.


Virei-me sobre minha própria existência, e contemplei-a.

Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,

e este abandono para além da felicidade e da beleza.


Ó meu Deus, isto é a minha alma:

qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,

como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inùmera...



(Cecília Meireles - livro Viagem, 1939)


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Arrisco-me na proposta "Entre mim e mim". Com a mão esquerda apoiada no queixo. E os meus olhos sobre muitas direções...Por que os desejos sempre são afligidos? Quanta razão!

Assusto-me com as "naves revestidas de espelhos". Já há tanto mar! Mar todos os lados! E agora? Que elemento investigo o que me atinge neste instante? O silêncio.

Qual será o "gosto infinito das respostas que não se encontram"? Gosto de suspensão, de um eterno luto que agora se assenta... gosto de nada?

O nada

Minha virtude é? Minha aventura?!

Minha virtude é caminhar me refazendo...Inconclusa, entregue ao coração do amor,

vário e surpreendente.

Tão simples em poesia!

Para lá, para lá que está por toda parte deste agora. 

Aqui imenso!

"Ó, meu Deus, esta é a minha alma": Jesus é meu paizinho! Tinha na blusinha vermelha de eu criancinha contempladora da procissão da corte do Divino Espírito Santo! O vestido das daminhas é de um azul tão celeste! E Maria anda sempre comigo! Por que é a titia.

Mas, esta é a minha alma: Qualquer coisa que chama, qualquer coisa que arde e vibra! E ilumina o que estou sendo. Ilumina de jeitos diferentes que às vezes estranho.

Eu que tenho medo de mim?

Minha alma não flutua mais sobre meu corpo de areia precária. Ela anda numas de se integrar a ele! Meu corpo de criança de 60 anos de idade. Meu corpo. Este que comigo fala a toda hora. E me pergunta sempre sobre alguma coisa...corpo professor-aprendiz! Como minha alma pequenina, tão afeita à

Imensidão.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Lilás


 A tristeza é arabesco rococó

férrea linha que arrebata

o indômito

frêmito da pressa...


de existir

sem quaisquer pontos de arremate.


como que fiapos soltos em franjas inconclusas,

como que teares cegos que dão formas,

a  devaneios de certas cores


de cinza e prata

d'alguns poucos veludos feridos, desfeitos na inteireza dos malmequéres das horas.

por pétalas esvaídas pelo jardim dourado e roxo!


Aurora poente.




sábado, 14 de fevereiro de 2026

Travessia

A dor-sol pulsa do lado direito da espera.

Meu coração recém-nascido se assusta

com os alfinetes da noite pontiaguda chuvosa.


Avó,

Tia,

 Mães.

Krishna e o mago do deserto.


Minha mão

Ao me fazer companhia,

E o coração já pode chorar 

o quanto queiram as suas dores.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Bem-te-vi (Vovó presente)


"O olhar caiu dos seus olhos, e está no chão, com as outras pedras,"

(Cecília Meireles - "Orfandade")



Bem-te-vi (Vovó presente)

À Fernandinha Meireles


Ouço a voz da chuva que chega

molhando a tarde que vai embora

na carona das nuvens.


A voz da chuva canta comovida

as cinzas líquidas de meigas cantilenas.

Não é lamento, nem chaga

é movimento.


Minha ternura se afeiçoa tanto a teus sorrisos!

Clara dentre o cintilar variado 

de muitas espécies de fogo!


Vaga-lumes rubros, amarelos, 

e cintilações 

de eternidades muito antigas!


Agora, 

Minha ternura fica infinda, bem diante de mim!

Neste instante em que toda a música da vida e da morte

Te abençoa.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Àqueles que nos consolam - parte I (em prol da criatividade)

 Há muito tempo que percebo que encontro por aí algumas existências que me marcaram para o resto da minha vida. São pessoas com as quais encontro em situações que não imaginaria encontrá-las. Talvez, elas apareçam para me consolar da mesmice, para me dizer que a vida pode ser surpreendente (quando menos se espera).

Tento me lembrar desde quando isso me acontece...

Desde quando era criança?

Vizinhos...

Passantes...

Pessoas pelos trabalhos afora.


Jamais me esquecerei dos olhos azuis do Vô Dacunto - vizinho da casa onde moramos, enquanto a nossa estava sendo reformada... e de sua esposa, d. Maria. Por onde andarão esses dois, se já se encontram para trás e para frente do tempo?


E ainda tem o Elvis Jesus;

A doce senhora da saída do Pronto Socorro;

As damas do hospital - pelas quais nutro um amor eternizado e agradecido;

O passante que encontrei perto da Fontaine Wallace;

Os transeutes do metrô - africanos que mais parecem deuses;


E ainda tem mais gente! 


Essas lembranças merecem cada uma o seu texto.

Mas, hoje estou cansada, com relatório para fazer. E cumprir o prazo que os adultos, responsáveis e pagador de suas contas me sugerem.

Quis escrever essas palavras para que elas me consolem.

Para que eu não me torne "um escravo martirisado do tempo".

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Paris

 Monotemática. À primeira, segunda e terceira vistas muitos cafés.

Muitos. 

E a disponibilidade, cor e chamariz das cadeirinhas:

o mesmo também.

E parecem ser as mesmas pessoas que ali sentam e frequentam.

Monólogos que se encontram,

e o mesmo olhar absorvido pela imponente arquitetura

que é famosa e célebre

porque vi em algum livro de história de que não me lembro.

(Aí, são as falas  dos turistas.)

E muitas fotografias - obviamente dos celulares.

E muitas boinas ambulantes, acima de olhos sempre prontos para a próxima atração.


E por que amar este lugar?

Eu não sei... coisa legal e coisa chata tem n'importe où

não importa onde!

Eu não sei... o meu olhar também é atraído pelo ar, mas daquele que se coloca diante e além da fachada célebre! Que é muito bonita, por sinal.

Aquelas pedras que já viram tanta coisa e se ruinaram e se reconstituíram e estavam ali me reconhecendo...


Por que amar Paris? E saber que dela me enjôo?


O saguão d'Opéra Garnier, em que lá se encontram lojas e belos objetos para vender.

Cheira à vaidade. Tão somente.

Se ainda houvesse outras notas no topo daquele teto...

Mas havia?


Verde e o azul do céu.


E aquelas ruas?

Largas? Menos encantadoras. Pavimentos cansados, fartos, mas ainda assim, eternamente entregues a mais passantes!


E aquelas outras ruas? As menos largas?

Em que posso sentir um frio secular? 

De que gosto tanto por que bem sei que me espreita?


Eu amo demais o que não vejo de Paris. O que intuo o que me fala...

As descobertas anódinas que, ao que me parece, são tão singulares... quase uns idiotismos!


Les fils de Caïn
(Paul Maximilen Landowski, 1906?)





quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Redécouverte

 Je découvre que je me redécouvre.

Pleine de nouvels outils

invisibles et magiques

un peu fous

tant qu'il n'y ait pas de formes.


Juste de nouvelles présences de moi-même!

Une sorcière dont les enchantements

me font un peu peur


mais, seulement pour ce moment...