Noções
Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.
Descem pelas águas minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.
Virei-me sobre minha própria existência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inùmera...
(Cecília Meireles - livro Viagem, 1939)
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Arrisco-me na proposta "Entre mim e mim". Com a mão esquerda apoiada no queixo. E os meus olhos sobre muitas direções...Por que os desejos sempre são afligidos? Quanta razão!
Assusto-me com as "naves revestidas de espelhos". Já há tanto mar! Mar todos os lados! E agora? Que elemento investigo o que me atinge neste instante? O silêncio.
Qual será o "gosto infinito das respostas que não se encontram"? Gosto de suspensão, de um eterno luto que agora se assenta... gosto de nada?
O nada
Minha virtude é? Minha aventura?!
Minha virtude é caminhar me refazendo...Inconclusa, entregue ao coração do amor,
vário e surpreendente.
Tão simples em poesia!
Para lá, para lá que está por toda parte deste agora.
Aqui imenso!
"Ó, meu Deus, esta é a minha alma": Jesus é meu paizinho! Tinha na blusinha vermelha de eu criancinha contempladora da procissão da corte do Divino Espírito Santo! O vestido das daminhas é de um azul tão celeste! E Maria anda sempre comigo! Por que é a titia.
Mas, esta é a minha alma: Qualquer coisa que chama, qualquer coisa que arde e vibra! E ilumina o que estou sendo. Ilumina de jeitos diferentes que às vezes estranho.
Eu que tenho medo de mim?
Minha alma não flutua mais sobre meu corpo de areia precária. Ela anda numas de se integrar a ele! Meu corpo de criança de 60 anos de idade. Meu corpo. Este que comigo fala a toda hora. E me pergunta sempre sobre alguma coisa...corpo professor-aprendiz! Como minha alma pequenina, tão afeita à
Imensidão.
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