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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Diálogo com "Noções"

 Noções


Entre mim e mim, há vastidões bastantes

para a navegação dos meus desejos afligidos.


Descem pelas águas minhas naves revestidas de espelhos.

Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.


Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,

só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.


Virei-me sobre minha própria existência, e contemplei-a.

Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,

e este abandono para além da felicidade e da beleza.


Ó meu Deus, isto é a minha alma:

qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,

como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inùmera...



(Cecília Meireles - livro Viagem, 1939)


................


Arrisco-me na proposta "Entre mim e mim". Com a mão esquerda apoiada no queixo. E os meus olhos sobre muitas direções...Por que os desejos sempre são afligidos? Quanta razão!

Assusto-me com as "naves revestidas de espelhos". Já há tanto mar! Mar todos os lados! E agora? Que elemento investigo o que me atinge neste instante? O silêncio.

Qual será o "gosto infinito das respostas que não se encontram"? Gosto de suspensão, de um eterno luto que agora se assenta... gosto de nada?

O nada

Minha virtude é? Minha aventura?!

Minha virtude é caminhar me refazendo...Inconclusa, entregue ao coração do amor,

vário e surpreendente.

Tão simples em poesia!

Para lá, para lá que está por toda parte deste agora. 

Aqui imenso!

"Ó, meu Deus, esta é a minha alma": Jesus é meu paizinho! Tinha na blusinha vermelha de eu criancinha contempladora da procissão da corte do Divino Espírito Santo! O vestido das daminhas é de um azul tão celeste! E Maria anda sempre comigo! Por que é a titia.

Mas, esta é a minha alma: Qualquer coisa que chama, qualquer coisa que arde e vibra! E ilumina o que estou sendo. Ilumina de jeitos diferentes que às vezes estranho.

Eu que tenho medo de mim?

Minha alma não flutua mais sobre meu corpo de areia precária. Ela anda numas de se integrar a ele! Meu corpo de criança de 60 anos de idade. Meu corpo. Este que comigo fala a toda hora. E me pergunta sempre sobre alguma coisa...corpo professor-aprendiz! Como minha alma pequenina, tão afeita à

Imensidão.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Bem-te-vi (Vovó presente)


"O olhar caiu dos seus olhos, e está no chão, com as outras pedras,"

(Cecília Meireles - "Orfandade")



Bem-te-vi (Vovó presente)

À Fernandinha Meireles


Ouço a voz da chuva que chega

molhando a tarde que vai embora

na carona das nuvens.


A voz da chuva canta comovida

as cinzas líquidas de meigas cantilenas.

Não é lamento, nem chaga

é movimento.


Minha ternura se afeiçoa tanto a teus sorrisos!

Clara dentre o cintilar variado 

de muitas espécies de fogo!


Vaga-lumes rubros, amarelos, 

e cintilações 

de eternidades muito antigas!


Agora, 

Minha ternura fica infinda, bem diante de mim!

Neste instante em que toda a música da vida e da morte

Te abençoa.

domingo, 10 de agosto de 2025

Coração aprendiz

 

"As plantas ensinam mais suaves coisas. 

Elas mesmas não resistem à grandeza do oceano, e entram numa triste melancolia,

feridas pelo vento implacável das praias, 

e oprimidas por esse ambiente salino que o mar propaga tão alto e tão longe."


(Cecília Meireles - "Nossas irmãs, as plantas")




No coração, o mar

Revoltou-se de repente. Pois um ciclone inesperado soprou muito forte.

E a grande onda se precipitou sobre ele. Este coração de criança no jardim de sol, sombra e babosas.


Assustado, mas, corajoso

O coração bateu muito forte. Desesperado. Como um galope cego na estrada da noite sem cor.

Bateu forte

e forte

gritou, entoando o nome do Mestre da Luz de mãos abençoadas e benfazejas.

Gritou seu nome, mesmo se afogando de medo.


O coração botou pra fora de casa o terrível monstro marinho, que nada tinha a ver com seu jardim de infância.

Bastante molhado de sal, ele espera o sargaço diminuir

e, aos poucos, as plantas e as flores retomarem seu curso cíclico e colorido.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Ih! Pasmei!

 Mas por que sempre lembrar essas coisas longínguas?

A verdade, porém, é que há uns dias inesquecíveis,

uns fatos inesquecíveis, dentro de nós.

Tudo o mais, o que vivemos, gira em redor deles

Cecília Meireles - V - (Dispersos)


"[...] mas também não pude gostar da arquitetura da igreja, 

e fiquei triste, porque a melhor coisa da vida

é poder-se amar e admirar.

Cecília Meireles - "O miraculado" 

(Crônicas de viagem)


Faz muito tempo que não sinto vontade de ler o que escrevo. Quando eu era adolescente, ou mesmo criancinha, eu adorava escrever pra depois reler. Hoje, aos 43 anos, minhas circunvoluções mentais continuam...  Entretanto, tenho sentido um despender de vitalidade imenso quando tento reproduzir concretamente o que penso ou sinto.  Ainda assim, escrever é uma paixão. E paixões caminham lado a lado do ‘gostar’. E gostar me faz bem.

                Pra variar, tenho convivido comigo. Aos poucos, de outro jeito. Constantemente me reconhecendo um pouco –  E, pra variar, na percepção lenta de que o plano de ‘me conhecer’ consta em seu vigor vitalício (bobagem ter pressa!)

 

                Às vezes canso a mim mesma. Estou andando pelos cômodos da casa. Sei lá, fazendo uma atividade qualquer. E, subitamente:  cansada. Precisando urgente de uma pausa para digerir algo invisível ... (fui ensinada que não é bom comer em pé). Ou quando estou lavando o rosto, por exemplo, outra vez, uma hecatombe de cansaço. Um despenhadeiro, uma avalanche, uma maratona recém percorrida sem qualquer tipo de preparo anterior. Preciso parar. Fechar meus olhos. Esperar.

                Lembro que meu pai, quando pegava um nenenzinho no colo, (ele gostava de bebês) se divertia quando o ser pequenininho, de repente, começava a olhar pro nada. O reizinho ali, paparicado por todo mundo, todos à espera de alguma gracinha, alguma gargalhadazinha sua, e, súbito: absorto! Era quando meu pai dizia: “ Ih! Pasmou!”

Era tão bom ver e ouvir aquele comentário. Ainda hoje, sorrio comigo quando me lembro da cena. E gosto de me entreter ao pensar que aquele bebezinho constatava sua condição mortal, longe de estar bem adaptada na vida.  (O bebê já se cansava?) Era um infantil pasmo metafísico aos olhos divertidos do meu pai!

Hoje, sinto que talvez eu seja meio parecida àquele bebê: uma pasma súbita.  Subitamente cansada e tragicamente esperançosa (e quais eram as esperanças daquele nenenzinho?)

Posso adivinhar os olhos sorridentes do meu pai em algum lugar...

                


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Memórias de uma adolescente desapontada (Era uma vez Regina Duarte)

   Ontem,  assisti ao vídeo "Malu mulher, bora começar de novo?" postado por Zélia Duncan na sua página do Instagram. Aliás,  humildemente aplaudo "Zóinozóio" - série de vídeos que me instiga a questionamentos fundamentais frente à densidade de tempos tão confusos! Antes mesmo de tentar lançar algum pensamento ("O pensamento é triste/ o amor, insuficiente;/ e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.), agradeço a artista Zélia Duncan pela força das suas palavras e por seu posicionamento sincero e lúcido que sempre me convida à reflexão.

*


   Fui uma adolescente mais ou menos típica; envolta por uma espécie de redoma super-protetora e repressiva há muito tempo perpetuada. Fui daquelas meninas que iam crescendo mais ou menos submersas na difícil fase de impulsos e transformações que pouco ou nada entendiam.  Fui mais ou menos semelhante às adolescentes interioranas dos anos 90: desenvolvi-me tensa, rígida, sobre alicerces que me cobravam o dever de conservar uma norma de comportamento herdada.  Por sua vez, tenho a consciência de que minha mãe já havia sido compelida a carregar um breviário de regras aprendido com a educação recebida da minha vó. De sua parte (ufa! que cansaço!), entendo que minha avó já havia sido treinada a manter esse compêndio de normas inventariado pela criação herdada da sua mãe - minha bisavó. Ou seja: é melhor parar por aqui a contemplação da minha genealogia de regras! Porque é difícil precisar desde quando eu contraí essa lombalgia ancestral, ocasionada pelo peso do ditame definidor e restritivo do que é ser uma mulher.

   Afirmo que fui mais ou menos uma adolescente típica pelo fato de diferir quanto à escolha dos ídolos que fomentavam as fantasias próprias da época. Naquele tempo, embora  também sequestrada pelos modismos, eu não ouvia New Kids on the block e tampouco a Madonna me inspirava! Tinham as bandas de música nacionais como RPM, Dominó, Polegar as quais eu não achava a menor graça! Talvez, devido ao fato de nos anos 80, a minha infância ter sido habitada pelos artista admirados pelos meus pais e irmãos mais velhos, meu gosto tenha se tornado sei lá... Um pouco diferente? Sendo assim, meus irmãos + minha mãe (professora de alma cantora, pintora e modista) + meu pai  (comerciante de espírito boêmio e poético) resultaram na percepção de que o belo e a arte verdadeira superam limites ou convenções. Inclusive,  estão para além da suposta diferença de gosto entre as gerações. 

   Nos anos 90, mais precisamente no ano de 1991, a rede de televisão mais famosa da época (não tô a fim de escrever o nome não, pois periga de a inspiração ir embora) reprisou - antes da novela das 6 - um de seus maiores sucessos: Roque Santeiro. Quando a novela foi lançada em 1985, eu tinha apenas 6 anos, isto é, não ligava para o frisson que aqueles personagens caricaturais causavam em todo mundo. Só me lembro do álbum de figurinhas que meu pai comprou para meus irmãos e de como eles se divertiam com toda aquela febre! Na reprise de Roque Santeiro em 91, nós já tínhamos vídeo-cassete (era o máximo poder gravar os programas que a gente gostava!). Para encurtar a história: eu não perdia um capítulo sequer, acompanhando tudo com meu pai e ainda gravando os capítulos para reassistir mais tarde! De quebra, Roque Santeiro passou a representar os momentos de proximidade com meu velho que era pessoa fechada. Nós ríamos muito juntos, enquanto  ele mencionava a inteligência da trama brilhantemente desenvolvida por Dias Gomes! Eram risos também fomentados pela fruição da ironia, da sátira, da crítica!  Resultado? Não foi  difícil de me apaixonar por aqueles personagens teatrais! Não foi difícil de me apaixonar por um personagem em específico: a cômica,  a irreverente e burlesca Viúva Porcina!
   
  Se na adolescência, eu já tinha uma inclinação forte para as artes, depois de ver a atuação de Regina Duarte em Roque Santeiro, eu tinha a certeza dos meus 12 anos de que seria atriz de teatro! Mais tarde, aos 14, a descoberta da poesia teatral de Cecília Meireles (pausa para a comoção do amor) vinha confirmar e reforçar a escolha de querer ser artista! E ser professora seria uma forma de eternizar o amor pelo palco, pela liberdade de expressão? (pausa para um possível talvez). O fato é que quando eu me apaixono, a entrega é certa! Nas minhas aventuras de fanzoca, quis saber absolutamente tudo sobre a atriz Regina Duarte! Do que ela gostava, quais os artistas eram suas referências, o que ouvia, o que amava, quais os valores que  defendia! Aquele ídola dos meus 12 anos me incentivou a querer conhecer sobre o universo das artes e do pensamento. Regina Duarte incentivou a adolescente a pesquisar sobre teatro, poesia, música, filosofia e a amar esses universos! Era nítida a impressão de que as ideias revolucionárias daquela artista traduziam o modelo feminino que gostaria de me tornar: uma mulher forte, independente, culta, inteligente, versátil! Enfim, um ser  livre! Por meio de suas entrevistas e dos programas dos quais participava - ouvi falar pela primeira vez em Guilherme de Almeida,  em A vida é sonho de Calderón de la Barca, em Simone de Beauvoir! Lembro-me ainda hoje de sua menção ao livro Memórias de uma moça bem comportada (tenho o livro). 

  Com Regina Duarte, minha adolescente ouviu falar pela primeira vez sobre temas como: emancipação da mulher, divórcio, discussão sobre aborto e liberdade sexual. Até mesmo soube de sua participação do movimento "Diretas já" ao lado de Fernanda Montenegro, Marília Pera e tantos outros artistas! Era  realmente fascinante sua forma revolucionária de se expressar ao mundo! Na verdade, eu sentia até certa lisonja por haver escolhido uma ídola como Regina Duarte! Certamente, sou agradecida àquela atriz dos anos 80 e começo dos anos 90 por ter me apresentado um mundo rico, diverso, igualitário e libertador! O mundo das artes! Felizmente, percebo que minha adolescente levou consigo todo esse ensinamento para a vida adulta. É em respeito à sua memória, que venho decepcionadamente lamentar o que foi feito da artista que a inspirou na época. 

   Hoje, com grande tristeza, tenho a constatação de que a ídola da minha adolescência foi suplantada por uma figura absolutamente desconhecida. Com o passar dos anos, tenho a impressão de que aquela artista maravilhosa foi completamente substituída por uma espécie de sósia: no seu lugar, há uma mistura de business woman ao estilo capitalismo selvagem com a senhora dona Sinhá dos tempos do Brasil da escravidão.  Uma velha proprietária e careta, dona de um discurso cínico, calculista, retrógrado, preconceituoso, machista e alienado. E quando escrevo velha, não me refiro de maneira alguma à sua idade! Velha  aqui indica a acepção caduca do termo! Para mim, nos dias de hoje, determinadas infelicidades de sua autoria do tipo: "brincadeira homofóbica da boca pra fora" e "que dizia que lugar de negro é na cozinha" parecem sintetizar tudo aquilo que há de mais obsoleto e decaído!

   É triste ter de escrever este texto-desabafo, cuja intenção é procurar uma justificativa plausível para a escolha de alguns ídolos da adolescência.  Faço questão de aqui registrar que esse texto não tem o propósito de ofender a pessoa da atriz e tampouco atacar e desrespeitar seus posicionamentos. Peço desculpas se, por ventura, ele incorre neste equívoco! Trata-se mesmo de um desafogo um tanto acalorado e desiludido, diante da perda de uma referência. Nada mais! É a tal da minha porção adolescente que se sente bastante desapontada. Sabe aquele papo de que o problema não é com você, é comigo? Então, é mais ou menos isso...




domingo, 11 de março de 2018

"Da saudade"




A natureza da saudade é ambígua: associa sentimentos de solidão e tristeza, - mas, iluminada pela memória, ganha contorno e expressão de felicidade. Quando Garrett a definiu como "delicioso pungir de acerbo espinho", estava realizando a fusão desses dois aspectos opostos na fórmula feliz de um verso romântico.
   Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro já o transforma em passado. A vida é constante perder. A vida é, pois, uma constante saudade.
   Há uma saudade queixosa: a que desejaria reter, fixar, possuir. - Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem, como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência de eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência: imortalizá-las em amor. O verdadeiro amor, é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum.



(Cecília Meireles - Crônicas em geral)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Doidos favoritos

"Algum velho da minha geração,
uns poucos doidos mansos, e quem mais?"

("Luar para Alphonsus" - Carlos Drummond de Andrade)




"Amanhã, vem-me entrevistar uma simpática inglesa meio louca [...] 
quinta-feira, vou tomar chá com uma portuguesa semi-louca, 
que tem medo de sair de casa; eu só gosto de gente louca, desses loucos mansos,
maníacos que a vida entristeceu, que ninguém atura, e que eu acho encantadores.
[...]
E as suas demonstrações são de maior compreensão que a da gente normal; 
e de uma certa categoria de amor, que os outros nem sonham.
Se eu não tivesse outras coisas a fazer, criava um salão de loucos
para conversar e fazer espírito, como no século 18."

(A lição do poema - Cecília Meireles) (carta LXXX)


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Fragmento - O Ás de Ouros

O Ás de Ouros

I Acto

I Cena

[...]
D. Dama (com movimento quasi de dansa) - Tens saudade do teu Santo... (examina a medalha, foco de luz na mão dela)
V. [Valete] O meu Santo... (quasi triste) ... que vivia tão alto...
(Contemplam-se profundamente)
D. - Tão alto! (abaixa a cabeça) - pausa - Eu também subo tão alto... Mas sempre volto à terra... A terra está aqui, em baixo dos nossos pés... E estou sempre entre a altura e a terra... Tudo sobe da terra: o circo, o meu amor... já viste essas plantas duras, audazes, bordadas de espinhos ? Essas plantas que não precisam de nada? que nascem da areia?
Meu amor é assim. Mas tem uma carne suave, que estremece por ti, nada o alimenta, e êle não morre.
V. - Chegará também a minha vez de falar. Como tu falas do chão, eu te falarei do nosso vôo, do movimento puro, da nossa presença instantânea sobre o perigo. Não foi para isso que longamente nos construímos? Já viste êsses pássaros que sobem, sobem, e de repente deixam de mover as asas, e caem para longe - quem sabe para onde? Há para os homens uma espécie de liberdade assim. Que deve ser a dos deuses, se existirem... Uma independência da terra.

Cecília Meireles



terça-feira, 19 de setembro de 2017

"Velho estilo"

Coisa que passas, como é teu nome?
De que inconstâncias foste gerada?
Abri meus braços para alcançar-te:
fechei meus braços - não tinha nada!

De ti só resta o que se consome.
Vais para a morte? Vais para a vida?
Tua presença nalguma parte
é já sinal da tua partida.

E eu disse a todos desse teu fado,
para esquecerem teu chamamento,
saberem que eras constituída
da errante essência da água e do vento.

Todos quiseram ter-te, malgrado
prenúncios tantos, tantas ameaças.
Grande, adorada desconhecida,
como é teu nome, coisa que passas?

Pisando terras e firmamento,
com um ar de exausta gente dormida,
abandonaram termos tranquilos,
portas abertas, áreas de vida.

E eu, que anunciei o acontecimento,
fui atrás deles, com insegurança,
dizendo que ia por dissuadi-los,
mas sendo a sua mesma esperança.

No ardente nível desta experiência,
sem rogo, lágrima nem protesto,
tudo se apaga, preso em sigilos:
mas no desenho do último gesto,

há mãos de amor para a tua ausência.
E esse é o vestígio que não some:
resto de todos, teu próprio resto.
- Coisa que passas, como é teu nome?

Cecília Meireles - Vaga música (1942)

quarta-feira, 15 de março de 2017

Improviso sob o "Improviso do amor-perfeito"


Naquela nuvem naquela, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

(Cecília Meireles)


Pensar com o sentimento numa parcela de ti
que me é fogo manso guardado sob o marrom prateado das praias  
que saúdam meus pés,
tão gentilmente...

Eu sou o amor por ti
quando o fôlego absorto da lembrança,
me põe num fechar de olhos.

E meu peito dança
com a folhagem ensolarada do outono.

E quando me sento admirada com a litania das lágrimas que se guardaram
atrás do pêndulo desta hora.

Canto surdamente uma canção para mim
para ser este amor que invento.

Consorte.
De espera nenhuma.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Fugindo da Górgona parte centésima.

Hoje passei o dia inteiro fugindo da Górgona. Essa Medusa localizada em parte ignorada no meio do peito, que me provoca uma espécie de azia, enjoo ou síndrome hepática emocional.
Talvez seja ansiedade que adoça demais os olhos. Talvez  eu esteja mesmo bem guarnida de ansiedade - essa Górgona ora me alimenta ora me conduz ao jejum!
Para não encarar a Górgona e não virar pedra, vou enumerar as estratégias das quais lancei mão o dia todo:

- Dei uma de monja copista. Revisitei textos amados e passei muitas horas a copiá-los. Ainda hoje, descobri que os monges medievais copiavam as escrituras bíblicas como forma de dizimarem o tédio. Era um benefício duplo: além de alimentar a alma com sabedoria, o tédio também era rechaçado. (Identifiquei-me ou não?)

- Andei descalça no chão molhado. No asfalto mesmo. Depois na grama, na terra, na lajota me concentrando na sensação que essa simples ação me provocava.

- Como o Zeca assistiu ao filme " Em nome de Deus" - filme em que se conta a história de amor de Heloísa e Abelardo - claro que me emocionei mais um bocado. Assisti até a parte em que os dois foram flagrados. Depois, a coisa só piora! Fugi. No lugar de continuar a assistir, fui pesquisar em francês a famosa história.

- Na pesquisa sobre Heloísa e Abelardo, fui parar num vídeo no Youtube em que um escritor francês chamado Jean Tuilé reconta a história desses dois! Descobri que há um livro chamado Heloïse ouille e que Heloísa era pra lá de prafentex e que Abelardo era praticamente um rockstar da época. Fiquei surpresa com a conexão das coisas. Pois o mesmo Jean Tuilé é autor de Le magazin des suicides - que na verdade é um conto refeito para cinema. (Legal, hein??)

- Ouvindo francês, muitas palavras foram conhecidas ou revisitadas. Dentre elas, o termo caveau (Momento do autoquestionamento se tenho ou não uma veia meio gótica. Será?). Ouvindo caveau, descobri também outro tema muito interessante para se pesquisar que é o chamado Miracle d'Abélard! Parece que quando os restos mortais de ambos se encontraram ou por misticismo ou irregularidade do solo, o esqueleto de Abelardo literalmente abraçou o resto dos ossos da amada! (Achei belo, misterioso, estonteante pra dizer a verdade). Só não pesquiso isso hoje porque já estou cansada. Corri demais da Górgona. Mas, se paro eu ainda doo... Por isso estou aqui escrevendo este montão de coisa! (Com ou sem sentido???)

- Abelardo, Heloísa, ossos, cova! Lá fui eu parar em outro site francês em que havia a explicação estrutural das covas! Bem: vi figuras explicativas sobre a organização dos caixões e conheci o termo "Vazio sanitário". Essa expressão impressionante me deu a conhecer o óbvio: que existe tal separação dos corpos da superfície... Foi aqui que duvidei se quero mesmo ser enterrada! Achei triste, superficial, construído... Contudo, a ideia da cremação nunca me atraiu! Entendo como sacanagem a exposição da microfauna corpórea à fome! Bem no momento do banquete! Cadáver é carne dada aos vermes! Não é alcatra pra churrasco de crematório! (rsrsrs...que coisa mais ridícula de se escrever!)

- Ah, já estou cansada e já bocejo... Tento parar de me entreter. Será que a Górgona já dormiu? Hein? Hein? Heinnnnnn?????? Não! Continuo a doer... Hum...o que fazer, o que fazer? Bem, me deitei no chão. Tentei uma conexão com o superior. Melhorei! Deu mais gás pra correr...Ufa! Górgona imensa!

- Fui ouvir Canto Gregoriano. Abelardo, Heloísa, Górgona, dor... Pensei na claridade que estas entoações meditativas davam à época! Funcionou comigo! Foi lindo! Senti-me mais apaziguada! Dá-lhe Canto Gregoriano então... Fui pesquisar sobre a origem do Canto Gregoriano! Descobri Papa Gregório, descobri século VI, descobri o monastério em Silos na Espanha... E a Górgona atrás de mim ainda! Ai...

- Bem, continuo adepta do silêncio porque hoje falar com as pessoas está dolorido pra mim! Enfio-me aqui na minha "Arrière-boutique" - como diz Montaigne - quer dizer: no meu cantinho!

- Antes de Heloísa e Abelardo, reli "Da solidão" da Cecília para mais tarde pensar em escrever sobre seu elo com o ensaio de Montaigne  "Sobre a solidão". Anotei algumas coisas, alguns pensamentos, escrevi...enfim...vali-me de novo das letras como estrada, "pernas pra que te quero" pra fugir.

Estou cansada de tanto correr com a cabeça. De tanto me manter ocupada! De tanto não encarar esse monstro que é minha Górgona magnífica! É... a glote lacrimeja e no meio do peito não tem ninguém...ou tem um único sobrevivente que ainda grita. E que somente eu mesma ouço!
Estou com a mente calejada de tanto correr. Estou com cãibras nas sinapses... Tô quase na linha de chegada do dia 02 de março para o dia 03 e a Górgona que me espia, espreita, aparece na minha frente e que me olha! Franze ainda mais o cenho. Ri! Meu Deus!!!
Bem, meus olhos já pesam ainda mais! Daqui a pouco: naninha! Espero não reencontrar a Górgona sentada numa poltrona de veludo vermelho no meio do meu inconsciente, entoando Canto Gregoriano ou travestida de casal maluquete medieval! 

Cenas do próximo capítulo. Em breve! Só queria mesmo era um comercialzinho pra descansar.

(Pra variar um pouquinho, ilustro a minha Górgona com a Hydra. Só pra diversificar... O mostrão tá aquático hoje...)


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"Caturrinha"

"O real é aquilo de que não se pode acordar"  (Valéry) 

Um viva eterno à imaginação e às suas maluquices!


*Caturrinha sempre desejou morar em lugares impossíveis: dentro dos pianos, embaixo das mesas, entre as rodas dos grandes relógios, e **nos braços do lustre, que era uma árvore de cabeça para baixo. Morar - para ela - era participar profundamente de um certo mundo. As casas são apenas cascas: fachadas, telhados, paredes... Não, Caturrinha não queria cascas: queria o sabor e o perfume. Queria o segredo. Na região do segredo encontrava linguagem, companhia, conversação.
   Na verdade, nunca se preocupou com a maneira de se chegar a este mundo, porque a bem dizer, para ela, não havia diferença bem nítida entre nascer e não nascer. Mas, quando lhe disseram que chegara dentro de uma abóbora, achou a coisa mais absolutamente natural do mundo. Talvez tivesse lamentado vagamente - muito vagamente -  não ter sido num vidro grande de farmácia, reclinada naquela frescura líquida e já vendo as paisagens aparecerem através de curvas paredes amarelas e azuis.
   Mas também isso não era motivo para apreensões nem nostalgias, pois bastava-lhe querer passar a residir nesses lugares incríveis. Habita muitas horas o recesso de um intrincado desenho do tapete, e uma vez descobriu como se pode viver dentro de uma lágrima  equilibrada nas pestanas.
   Inúmeras vezes adormeceu naquele prado verde que se vê no meio da lua, e por onde pasta, movendo a cauda, o cavalinho de S. Jorge. Nesse tempo, sua vida era ainda muito estática: apenas descobria uma nova morada, ali pousava, e ficava entretida. Melhor seria dizer contida em sua distração, como o orvalho na sua forma. Foi o tempo do seu êxtase dentro das cores, das transparências, das texturas. Por acaso já moraste, meu irmão, dentro do anil? dentro da cânfora? na minúscula ilha submersa na escuridão de um caroço de ameixa? Pois esses eram os seus profundos caminhos pensativos.
   Depois em tempos de mais atividade, patinou pelas alamedas das fibras das madeiras, dos veios dos mármores, - e os labirintos que as formigas apenas superficialmente conhecem nas folhas dos cóleos e dos tinhorões não tinham estradas nem túneis que não houvesse percorrido, embora servissem apenas de mapa, e as viagens fossem dar a paragens de uma realidade total, mas sem fim e sem nome: como planetas ainda por localizar.
   Quando diziam que Caturrinha sonhava, ela não entendia bem. Pois como nascer e não-nascer, o sonhar e o não-sonhar nunca lhe apresentaram contrastes ou oposição. Tudo lhe era naturalmente fluido e unido, com pequenos caprichos, de vez em quando, como água que forma bolhas, estrias, mas vai andando, e reabsorve suas pequenas, graciosas, rápidas e gratuitas diversões.
   Naturalmente o circo era o ambiente mais compreensivo de todos. O estranhável é que a humanidade inteira não andasse em trapézios, como as aranhas, e os homens não pudessem torcer o peito para as costas quando entendessem, nem pudessem pular de um telhado para outro, de uma praia para outra praia, de uma estrela para outra estrela. Nesses momentos, quanto todos se espantavam, e batiam palmas e arregalavam os olhos, sentia um certo desprezo melancólico, não se sabe contra quem. Fitava as pessoas que celebravam aquelas habilidades como coisas excepcionais. Ela não as entendia. Positivamente, não entendia as pessoas grandes. E, com certo desdém, também lhe inspirava uma espécie de surda pena.
   Às vezes dizia: "Hoje sou peixe" ou "Agora estou sendo sempre-viva" -  e as pessoas crescidas faziam um muxoxo e resmungavam: "Coisas da Caturrinha." Diziam-no com uma expressão de certa piedade. E ela os achava tão bobos, tão bobos... -  e continuava a mover suas nadadeiras, dóceis, transparentes, como franjas de água, e continuava a crispar num vento invisível as amarelas escamas de suas flores sem morte.
   Houve um tempo em que foi violão. E quando respirava sentia-se toda sonora. Mas ninguém nunca reparou nisso. Morava num guarda-roupa enorme, com o peso e o odor de uns vestidos imemoriais pousados na sua madeira. A qualquer escorregar de uma fímbria, acordavam músicas. E enquanto estava sendo assim violão, em toda a sua plenitude, acontecia perguntar-lhe a professora: "Vamos, Caturrinha, quantos são os reinos da natureza?" "Ah! - dizia -  uma porção..." E punha-se a enumerar, sem pressa: havia o reino dos cavalos de estrela na testa... o reino dos anões de barba verde... o dos sapos mágicos... o dos touros com asas...
   A classe inteira ria. Eram muito estudiosas, aquelas meninas. E a professora passava adiante, não sem alguma consternação: "Ah... esta Caturrinha..." Mas como era a menorzinha de todas, faziam-lhe festas, esticavam-lhe os cachos do cabelo, davam todas as demonstrações de permitir que a sua maluquice prolongasse por muito tempo. Afinal era tão engraçada!
    Mais tarde é que tudo mudou um pouco. Perguntaram-lhe: "Como vai ser a sua casa, quando você se casar?" Ora essa! Dizia: "Translúcida." "Translúcida, como? De vidro?" "De vidro, de pétala, de pálpebra..."
   Não, depois de uma certa idade, todos devemos ter uma certa conveniência com as palavras. Uma criança é uma criança, vá lá, não sabe o que diz. Mas agora, depois de grande, vir uma pessoa dizer com ar de seriedade: "estou viajando em redor de uma vela de cera" - não, isso já é pedantismo ou loucura. Depois de certa idade, é proibido possuir imaginação.
   E as amigas de Caturrinha tiveram casas curiosíssimas - com varandas prateadas, móveis com muitos espelhos, cortinas de muitos feitios, papéis pintados, tapetes como caleidoscópios, colunas como grutas, aquários com peixes dançantes... E nunca nenhuma delas viu a casa que tinha. Sabiam receitas de limpar mármores, de polir madeiras, de tirar manchas de veludo, e nunca descobriram os países soterrados naqueles mármores, as dinastias que desfilavam nos íntimos arabescos daquelas madeiras, as farfalhantes florestas, com plumas e cascatas, aprisionadas nos seus veludos.
   Nunca dormiram dentro de seus pianos, lá onde a música ainda é um acorde de aromas de madeira e metal. Nunca esperaram o entardecer com o rosto encostado a um vidro, vendo o diagrama da vida na névoa da respiração. E perguntavam, compadecidas: "E você, Caturrinha?" "Eu? Agora estou morando dentro de uma palavra. É maravilhosa, tem quinze declinações." E começa a decliná-la, exatamente como fazem os contorcionistas nos circos: um músculo que retesa, outro que se afrouxa, um joelho que sobe, um pé que aparece noutro lugar, a mão que tateia procurando solo, os olhos que vão surgindo, rampantes, como dois sáurios... E advertia: "mas ainda faltam outros casos: o adverbial, o prossecutivo, o mutativo..."
   E as amigas ficavam imóveis, um pouco. Depois falavam em comprar outras cadeiras, mudar as cortinas, arranjar nova casa... Porque as casas são pequenas ou grandes, caras ou baratas, em lugares elegantes ou em bairros sem distinção... "Não acha, Caturrinha?"
   Mas os seus pontos de vista eram sempre esquisitos. "Bem, é conforme... Por exemplo, as nozes são um pouco escuras, mas têm aqueles tabiques muito delicados, e aqueles marfins macios e crespos... O ovo já é mais translúcido, e muito doce de percorrer, de uma câmara para outra... Pensando bem, prefiro o caramujo. É uma usina de sonho, e sua rampa é firme como mármore e suave como seda..."
   Todos chegaram, desse modo, à conclusão de que Caturrinha não levava nada a sério. Uma vez que não era louca, e isso positivamente não era, só podia dizer aquilo por gracejo. E era uma pena,  que estivesse sempre gracejando assim...
   Pois as amigas de Caturrinha pensavam com aquela gravidade da criada que lhe ponderou: "Madama, eu, pra falar a verdade, sou arrumadeira, mas só gosto de me empregar em apartamento que tem entrada de mármore e elevador dourado..." E ela - meus irmãos! -  estava morando justamente naquela época, nas letras do alfabeto hebraico! - que lhe pareceu muito plástico, porque tinha elefante, casa, caramelo, porta, água, peixe... - era um longo bazar, no qual se podia ir sonhando longamente, de soleira em soleira...

(Cecília Meireles. Rio de Janeiro, A Manhã, "Letras e Artes", 9 de fevereiro de 1947)


*Caturrinha (caturro): teimosa, obstinada.
** Destaque às partes que nos causam mais embasbacamento. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Estrangeirices


"Às vezes me apaixono por uma cor e passo a viver dentro dela. É esquisito, hein? E quando compro um vestido ou um outro enfeite, nunca é pelos motivos usuais: é sempre por uma maluquice dessas." 
(Cecília Meireles em A lição do poema. Carta  a Armando Cortes-Rodrigues. Carta de número 64)

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Acho que não é somente  uma sensação pessoal me sentir de vez em sempre forasteira.
Há de existir muitos seres humanos que se sentem participantes de lugar nenhum neste planeta Terra.
Caminho.
Encontro pessoas. Encontro pessoas? Tá, tudo bem. Encontro pessoas! Pessoas agindo de formas absolutamente estranhas em relação ao que considero relativamente conhecido.
Ou talvez seja eu aquela de formas absolutamente relativas frente a todos esses estranhos conhecidos?

Hum!

O fato é que hoje à tarde olhava para a grama crescida do meu jardim. O vento pendia aqueles fios verdes que mais pareciam cabelos lisos e verdes e rebeldes para o alto... O sol. O céu que a todo momento mudava de opinião em relação à chuva, às nuvens, ao azul...

É...

"Sinto-me nascida (licença, Pessoa) a cada momento para eterna novidade do mundo" ! 
Sempre! 
E constatar a importância dessa sentença pra mim ajuda na aceitação de me flagrar por vezes e vezes no mais completo e  puro estado de embasbacamento!

Então, para honrar meus pregressos, atuais e futuros estranhamentos nessa Terra, resolvi me lembrar de algumas atitudes e pensamentos estranhos que me visitam. Uns com alguma frequência, outros nem sempre aparecem... Mas, independente do número de vezes que eu os percebo, eles estão por aí! Firmes e fortes na intenção de me dispersar! Então:

Estrangeirice nº1:
Ao comer mamão papaia percebo que, embrenhando-se na polpa da fruta,  a colher faz nascer um movimento semelhante às grandes ondas antes da arrebentação. Sim! O movimento da colher no mamão papaia sempre me dá onda de mar da cor alaranjada! E eu adoro isso! (Estranho, não?)

2. Estrangeirice nº 2: 
O pó de café molhado no filtro da cafeteira é igual a barro escuro ou a chocolate liquefeito! Quando se parece a barro escuro, sempre acho que daquele pó de café molhado sairá uma minhoca ou algum broto! E quando se parece a chocolate liquefeito, tenho vontade de colocar aquele pó de café molhado na boca ou aproveitá-lo na massa de algum bolo que sei que não irei fazer porque não gosto de cozinhar. (Mas, a ideia do bolo não deixa de ser bonita e nem menos bizarra.)

3. Estrangeirice nº3: 
Desde criança, o fato de tirar o sabonete do invólucro  sempre me  faz lembrar de picolé de côco cremoso! Bem, já sei que sabonete Lux Luxo não é nada saboroso, pois aventurei-me a prová-lo lá pelas casa dos 8 anos e não gostei! Definitivamente,  a velha questão da essência e da aparência nesse caso! (Papo de maluco).

4. Estrangeirice nº4:
Ao lavar uma peça de roupa à mão, o contato da roupa com a água, mais o sabonete me mostra certas ondulações sutilmente oleosas. Ficam ali alguns caminhos naquela água, caminhos semelhantes  a longas serpentes aquáticas e transparentes. Mas, tem que prestar muita atenção pra ver! É mais fácil quando em água quente ou morna! (Interna!)

5. Estrangeirice nº 5
Para mim, a diferenciação da personalidade dos livros também se dá pelo cheiro. Livros espessos e de letras miúdas podem ter frases impressas em odor mais grave, enquanto que o cheiro dos poemas amados tem grandes chances de emanar de suas rimas perfumes longínquos e estranhamente conhecidos. (Do simpático nada a ver com nada).

6. Estrangeirice nº 6:
Voz de cantor e cantora tem cor! Assim como pode ser opaco ou brilhante o som de um instrumento musical. Na música "Tenha calma", por exemplo, o som do trompete tem  cor de ouro envelhecido. E a voz da cantora Maria Bethânia tem cor de prata enluarada. É perfeito o encontro dessas duas nuances! (Piração na batatinha e viagem na maionese total).

Certamente, há de existir estrangeirices muitas que eu ainda nem tenha percebido. Outras serão inéditas, bem ao gosto do momento do velho sentir-me forasteira por estas terras. 
E, aliás, em matéria de estrangeirices, todos nós nos correspondemos, não é mesmo? Como já bem disse minha mamãe Cecília Meireles:

"Quem deseja me ouvir nestas paragens
onde todos somos estrangeiros?"

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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A secreta experiência das coisas.

Estava eu procurando um texto chamado "Da solidão" de Cecília Meireles. O caminho que me levou a querer revisitar a crônica foi uma outra solidão: a solidão do ensaísta Michel de Montaigne que, há algumas semanas, tive o prazer de visitar e amar. 
Pensei que talvez pudesse ser interessante colocar uma solidão na frente da outra. E deixar meu ser pequenino lá, observando a conversa solitária dos dois artistas. 
É bem possível que o resultado da soma da solidão de Cecília e de Montaigne  não seja exatamente um diálogo. Como o assunto aqui não é matemático, o que  nos faz erguer as mãos aos céus, entendemos o encontro como uma mútua apreciação de dois monólogos silentes. As palavras aqui se põem quietas e contemplativas, posto que as reflexões emanadas delas são infinitamente maiores do que seus sons, suas formas ou suas caras.

Mas, estava eu procurando o texto "Da solidão" de Cecília Meireles...

O livro onde a crônica se encontra se chama Escolha seu sonho. "Da solidão" se situa no logradouro página 39, à direita de "Vozes de Humaitá" e a quatro quarteirões laudas de "As meninas dos Hospitais". 
Dado o estilo da redondeza, não é de se estranhar a natureza erma do texto "Da solidão"... Pois para se ouvir as tais vozes de Humaitá (crônica vizinha) há que se fazer silêncio! E ainda, o mesmo silêncio é solicitado quando estamos próximos às paginas onde se encontra "As meninas dos hospitais" ! Pois bem...

Estava eu procurando "Da solidão" e, felizmente, encontrei a beleza: 

"Tudo palpita em redor de nós, e é como um dever de amor aplicarmos o ouvido, a vista, o coração a essa infinidade de formas naturais ou artificiais que encerram seu segredo, suas memórias, suas silenciosas experiências."


Depois dessas frases, minhas pálpebras ergueram-se e depois baixaram, enquanto eu ia deixando meu ser pequenino lá, a se observar pelas palavras prenhas de pensamento (paráfrase de Guimarães Rosa?) como são as  de Cecília Meireles.

"_ As silenciosas experiências das formas..." Pensava lenta e silenciosamente comigo... 
Foi quando encontrei o "Manual do Motorista" da minha avó, guardadinho bem no meio do Escolha seu sonho. E a primeira divagação foi interrompida para dar lugar à segunda:
"_Com tantos silvos, a contracapa do antigo manual mais parece o "Cota zero" do Drummond!" Pensava outra vez lenta e silenciosamente comigo...






"Tudo palpita em redor de nós"... 

Meu Deus! Súbito, constatei que os objetos têm mesmo secretas experiências e que ainda por cima fazem aniversário! 

O nome da minha avó grafado com sua própria letra noticiava: 

10/10/1968

Isso queria dizer que, há exatamente 48 anos, minha avó materna decidia estudar as regras do trânsito para poder tirar carta! 

Orgulho dessa avó que, aos 53 anos de idade,  seria futura motorizada no passado! (Seu exame aconteceu em janeiro de 1969)

Revisitando o manual em 10 de outubro de 2016, no aniversário de sua decisão, recordei sempre ter ouvido que minha avó gostava muito de ler! Professora, leitora, motorista independente, certamente ela deve ter trafegado por muitas páginas logradouros! Se dirigisse pelas ruas de Escolha seu sonho, tomaria muito cuidado no cruzamento entre "Da solidão" com a "Vozes de Humaitá". Ética, 
respeitaria os doentes e os convalescentes de "As meninas dos Hospitais". Perto de suas dependências, ela jamais teria acionado a buzina.










sábado, 17 de setembro de 2016

Lista de músicas (MPB)

De novo, o humor comporta-se feito gato. Arisco e desconfiado.
O humor muda de cara como: "eu vi El Rey andar de quatro, de quatro caras diferentes." 
Ora é nuvem que deseja se fazer chuva, mas, evapora porque outra vez mudou de ideia.

Fico mais dispersa do que o normal quando esse humor se evade de mim e ao mesmo tempo me leva para um onde.
Lembro-me de meditar. Lembro-me de me aquecer, indiferente ao suspiro e a seu peso que me conduzem não para o rés do chão onde alguma face desconhecida encosta seu lado direito. E olha. Perplexa amargura perfilada e órfã.


Montaigne, no ensaio "Filosofar é aprender a morrer", diz que quando nos dedicamos a leituras, a estudos é possível pôr-nos para fora de nós mesmos. Eis aí uma espécie de morte. 
Leio Montaigne para ele me ensinar a fazer as pazes com a melancolia e também para sadia e conscientemente morrer para fora.
Presumo que quando morro para dentro eu adoeço e há tempos que venho tentando viver mais organicamente, sem apressar mais nada. Aprendendo a deixar à guisa do tempo (o que não é fácil pra mim).

Então, para me distrair e dar alguma direção a meu ser dispersivo (porque melancólico), ensaio fazer uma lista de músicas das quais - quando inorgânica - gostarei de me lembrar. Se me perguntarem o que significou música para mim na Terra, eu responderei: 'todas as boas músicas' (como Cecília Meireles disse "todos os bons poetas" quando a questionaram numa entrevista sobre seus poetas prediletos). Ih! Dispersei de novo! Era para me distrair fazendo uma lista, não é verdade? Pois, antes que o humor se evada de mim e me conduza para um onde, trato de fazê-la. Certamente, não vou me lembrar de todas as músicas amadas. Provavelmente, na ocasião de outras crises de melancolia, existirão novas listas. (Será?)

MPB

1. "Guarde nos olhos" (Ivan Lins e Vitor Martins) (Essa seria para o funeral poético) :D


2. "Luz e Mistério" (Beto Guedes e Caetano Veloso) .Com a Zizi Possi também é linda!





3. "Nada será como antes" (Milton Nascimento e Fernando Brant) (A lista inclui todas as músicas cantadas por Elis Regina, tá?)





4. "João e Maria" (Praticamente todas do Chico Buarque, viu?)


5. "Estrada do sol" (Tom Jobim. Tem um monte dele!)




6. "Refazenda" (Gilberto Gil. Olha, claro que têm outras inúmeras. Mas, hoje sugerimos essa pintura aqui!)


7. "Oração ao tempo" (Caetano Veloso. Outro que a gente escuta tantas e tantas! Baiano phodah e todo mundo sabe disso.)


8. "Explode coração" (Maria Bethânia interpreta Gonzaguinha. Simplesmente divina!)




9."Paciência" (Lenine)



10. "Viajante" (Não sei quem é o compositor. Mas o gênio que canta é Ney Matogrosso!)



11. "O velho e a flor" (Vininha)



12. "Travessia" (Do Bituca é fó escolher!)


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Querer trazer o mar pra casa

Que é impossível todo mundo sabe!
Não é possível trazer o mar pra casa. E muito menos estabelecer uma relação afetiva do tipo "Namoro na TV" (Vixe! mas, que programa mais velho! E pra falar a verdade meio deprimente! E cômico! Apresentado pelo Sílvio Santos, tendo como trilha sonora as músicas do Julio Iglesias! Por que fui me lembrar disso?!)
Não! Definitivamente, não dá para estabelecer uma relação amorosa com o mar ao estilo de "Namoro na TV"!
Mesmo assim, mentalmente, eu ainda insisto em querer trazer o mar pra minha casa! E namorar com ele tipo num convívio diário, sabe? E, ainda por cima, colocar o mar pra dormir na cama comigo!E tomar café da manhã para depois pensar o que é que poderíamos comer no almoço!

Ora, o mar e eu poderíamos ler muita coisa juntos! Que ele é fã de poesia, disso eu já sei faz tempo! O mar e eu poderíamos nos lembrar das canções que ninguém mais canta! E, claro, gostaria de saber o que o mar andaria ouvindo pra me inteirar das boas coisas musicais.
É... O mar tem bom gosto!

Há muito, muito tempo que este ser ondulante me ganhou com sua cara de nascer e por do sol ao mesmo tempo. Atirou-me conchinhas assim: tão docemente. 
Criança, acreditei quando me disse que pelas suas encostas sempre haveria noite com estrelas. Constelações marítimas ou siderais. Que eu poderia escolher qual quisesse.
E os olhos do mar? Sempre de alguma forma sorridentes. Loquazes...

Mas, não dá pra namorar o mar, Márcia! O que é que você faria com as arraias nadando no teto do seu quarto? Sei lá, mas, as antenas e os bigodes dos crustáceos poderiam se irritar do dia pra noite! Imagina o imprevisto das reações?! Certamente, existem muitas anêmonas que, de acordo com o natural temperamento incerto, poderiam ser mais urticantes do que de costume! Sem falar da ressaca! Pensa: um belo dia estão vocês estão lá, no maior love e, sem qualquer aviso prévio, lá vem o mar com pancadaria!!
Têm tubarões, lulas gigantes, polvos nem sempre bem humorados! Muito provavelmente, dado o grande movimento de embarcações, sem mais nem menos, você poderia levar uma ancorada na cabeça! E mais de uma vez por dia!!
E, por mais que você tentasse nadar por aquelas águas, na busca ingênua de um entendimento mútuo, o mar jamais se quedaria satisfeito. Suas correntes reversas tragariam você. Talvez para um profundo desconhecido demais para depois regurgitá-la bem direto para as pedras e os rochedos...
É... Não dá para trazer o mar pra casa. Muito menos namorá-lo! Ter filhos! Pensar num natal diferente do convencional! Meditar juntos. Talvez fazer algumas compras para decoração da  casa...

                                            "O mar é só mar, desprovido de apegos" 

Você, sua primeira e terceira pessoa sabem muito bem que é inútil insistir no contrário!
Tá certo! Completamente de acordo, mas o que fazer a respeito da desobediência das vontades? 
Bem, talvez visitá-lo de tempos em tempos, jogar beijos de longe, afundar os pés na areia, sentir a chegada das marés no rosto, e olhá-lo e olhá-lo a não poder mais... (E sempre se pode!)

É! Acho que talvez essa seja a forma possível para não admoestar muito as tão sonhadoras aspirações! A ideia mais plausível para me acostumar em ser sempre inconformada (por não trazer o mar pra casa!)
E, além do mais, fazendo isso, a gente vai levando o mar! Quer dizer, a vida!

A vida! A gente vai levando!



 Ilustração: Lucy Campbell
Site indicado: http://www.lupiart.com/work/
                                     


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Os primeiros passos com Cecília Meireles

Olha, não tinha como iniciar esse blog sem mencionar que Cecília Meireles é minha escritora preferida. Afinal de contas,  foi ela quem me despertou a paixão pela poesia. Por sua vez, a poesia motivou-me a ler literatura e a literatura definiu escolhas fundamentais na minha vida.  

Desde a adolescência (por volta dos quatorze anos) Cecília Meireles tornou-se meu grande amor literário. Após essa descoberta, jamais me mantive distante da poesia, isto é, se não lia os poetas, vivia me arriscando a escrever alguns versinhos. Meu encontro com ela foi mais ou menos assim: no começo dos anos noventa, eu tinha o  hábito de flanar sozinha pela biblioteca da escola onde estudava. Eu adorava fuçar nos livros, sobretudo naqueles antigos de páginas amareladas e mordiscadas pelas traças. Na verdade, eu ficava um tanto penalizada pelo fato de vê-los lá esquecidos! Condoída, eu os levava comigo para ler em casa, nem que fosse ao menos  um trechinho. Lembro-me de uma peça de teatro que emprestei somente porque seu nome me soava por demais trágico! Eu amava o teatro (e ainda amo). A peça chamava-se Sangue limpo e o autor era Paulo Eiró. Recordo-me de ter decorado algumas falas e de ficar dramatizando certas cenas na sala de visita de casa! Era uma forma de treinar a memória, já que desde os doze anos, eu havia declarado para todo mundo que seria atriz de teatro! (rs)

   
Aconteceu que num dos passeios pela biblioteca,  quando já ia indo embora,  vi o nome Cecília Meireles numa estante. Achei o nome da escritora  tão  bonito que resolvi parar e apanhar o livro cujo título também me impressionava muito: Viagem/ Vaga música. (Mais tarde, descobri que, na verdade, eram duas obras reunidas num só livro). Decidi então levar Cecília Meireles comigo. 
Em casa, distraída eu folheava aquele livro. Procurava os títulos que mais me chamassem a atenção. Foi quando me deparei com "Canção" ( poema do livro Viagem). Sabe, foi uma leitura e um arroubo, pois aquele poema para mim era teatro! A força e a beleza daquelas palavras me motivavam a encená-las para mim mesma! (claro que da minha ingenuidade adolescente do que era encenar!) Foi mesmo um caso de paixão à primeira lida que, depois, foi se transformando em amor literariamente literal. Desde então, não consigo compreender o que é poesia e o que é literatura se não houver Cecília na minha estante. Se não houver Cecília na minha mente.

                                                                    
          ***

"Canção"

Pus meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
pra lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
                                                                     
                                                                          (Viagem, 1939)







Os primeiros passos com Cecília Meireles

Olha, não tinha como iniciar esse blog sem mencionar que Cecília Meireles é minha escritora preferida. Afinal de contas,  foi ela quem me despertou a paixão pela poesia. Por sua vez, a poesia motivou-me a ler literatura e a literatura definiu escolhas fundamentais na minha vida.  

Desde a adolescência (por volta dos quatorze anos) Cecília Meireles tornou-se meu grande amor literário. Após essa descoberta, jamais me mantive distante da poesia, isto é, se não lia os poetas, vivia me arriscando a escrever alguns versinhos. Meu encontro com ela foi mais ou menos assim: no começo dos anos noventa, eu tinha o  hábito de flanar sozinha pela biblioteca da escola onde estudava. Eu adorava fuçar nos livros, sobretudo naqueles antigos de páginas amareladas e mordiscadas pelas traças. Na verdade, eu ficava um tanto penalizada pelo fato de vê-los lá esquecidos! Condoída, eu os levava comigo para ler em casa, nem que fosse ao menos  um trechinho. Lembro-me de uma peça de teatro que emprestei somente porque seu nome me soava por demais trágico! Eu amava o teatro (e ainda amo). A peça chamava-se Sangue limpo e o autor era Paulo Eiró. Recordo-me de ter decorado algumas falas e de ficar dramatizando certas cenas na sala de visita de casa! Era uma forma de treinar a memória, já que desde os doze anos, eu havia declarado para todo mundo que seria atriz de teatro! (rs)

   
Aconteceu que num dos passeios pela biblioteca,  quando já ia indo embora,  vi o nome Cecília Meireles numa estante. Achei o nome da escritora  tão  bonito que resolvi parar e apanhar o livro cujo título também me impressionava muito: Viagem/ Vaga música. (Mais tarde, descobri que, na verdade, eram duas obras reunidas num só livro). Decidi então levar Cecília Meireles comigo. 
Em casa, distraída eu folheava aquele livro. Procurava os títulos que mais me chamassem a atenção. Foi quando me deparei com "Canção" ( poema do livro Viagem). Sabe, foi uma leitura e um arroubo, pois aquele poema para mim era teatro! A força e a beleza daquelas palavras me motivavam a encená-las para mim mesma! (claro que da minha ingenuidade adolescente do que era encenar!) Foi mesmo um caso de paixão à primeira lida que, depois, foi se transformando em amor literariamente literal. Desde então, não consigo compreender o que é poesia e o que é literatura se não houver Cecília na minha estante. Se não houver Cecília na minha mente.

                                                                    
          ***

"Canção"

Pus meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
pra lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
                                                                     
                                                                          (Viagem, 1939)