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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Fragmento - O Ás de Ouros

O Ás de Ouros

I Acto

I Cena

[...]
D. Dama (com movimento quasi de dansa) - Tens saudade do teu Santo... (examina a medalha, foco de luz na mão dela)
V. [Valete] O meu Santo... (quasi triste) ... que vivia tão alto...
(Contemplam-se profundamente)
D. - Tão alto! (abaixa a cabeça) - pausa - Eu também subo tão alto... Mas sempre volto à terra... A terra está aqui, em baixo dos nossos pés... E estou sempre entre a altura e a terra... Tudo sobe da terra: o circo, o meu amor... já viste essas plantas duras, audazes, bordadas de espinhos ? Essas plantas que não precisam de nada? que nascem da areia?
Meu amor é assim. Mas tem uma carne suave, que estremece por ti, nada o alimenta, e êle não morre.
V. - Chegará também a minha vez de falar. Como tu falas do chão, eu te falarei do nosso vôo, do movimento puro, da nossa presença instantânea sobre o perigo. Não foi para isso que longamente nos construímos? Já viste êsses pássaros que sobem, sobem, e de repente deixam de mover as asas, e caem para longe - quem sabe para onde? Há para os homens uma espécie de liberdade assim. Que deve ser a dos deuses, se existirem... Uma independência da terra.

Cecília Meireles



terça-feira, 20 de setembro de 2016

"Alegoria do triunfo de Vênus"

Olhe e veja. Deixe-se olhar e ver.





Soube que Agnolo Bronzino - autor da "Alegoria do triunfo de Vênus - pintou este óleo sobre madeira no século XVI (1540-1550). Parece mesmo que a tela é desta época?

Hoje pela manhã, o ar se pôs mais fresco depois da chuva de granizo de ontem.
Não sei por que razão a disposição das cores e a calma da umidade me fizeram lembrar do beijo entre Cupido e Vênus. Não sei...Simplesmente deixei-me levar pela vontade de visitá-lo e de me permitir ser visitada e vista por ele.

Talvez a mansidão da quentura do sol, penetrando pela copa da casa misturada a certo vapor liberado pela presença de nuvens... Talvez a vontade de tornar belo o comum dessas horas... O visgo fresco dos dois lábios macios, parecendo-me gosto tépido e molhado de pele em calda, sequestrou-me das ocupações que tardo a começar.

Salvei minha existência, por breve instante, do imediato das urgências. 
Agora, amaciada por uma espécie de transgressão ingenuamente incestuosa, diabolicamente indefensa e pueril, motivo-me a dar continuidade a meu ser responsável - aquele que respeita os prazos e o inadiável dos compromissos.

***

ps: Você não precisa ir até a National Gallery em Londres para visitar a "Alegoria do triunfo de Vênus". Se puder, que bom! Mas, a impossibilidade de vê-la in loco lembra o seguinte:

"Para que se tenha uma ideia nítida a respeito de algum livro ou de determinado quadro, é necessário possuí-los. Quadros expostos em galerias, visitados ocasionalmente nos confundem [...] não conseguimos estabelecer uma intimidade intimidade [...] sempre os tratamos cerimoniosamente, à distância." (Rilke - O diário de Florença)