terça-feira, 17 de janeiro de 2017

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Palavra e Forma




"A beleza de um corpo nu, só a sentem as raças vestidas."

Livro do desassossego


" La Grande Odalisque" - Jean A. Dominique Ingres (1814) - Musée du Louvre

sábado, 31 de dezembro de 2016

O último (!) (?) (?)

O último dia deste ano.

Estou no que chamam de a última tarde de um ano que se termina. Aqui, em matéria de tempo, as convenções são numéricas e dividem nossa existência em períodos contados.
Parece haver uma espécie de linha de partida que - como é de hábito em corridas ou em provas de resistência - é a mesma para quando chegamos ao término, isto é, para quando completamos o percurso.

Este último dia me traz um misto de sensações. Talvez, de alguma forma, eu perceba mais como os outros lidam com ele e menos como eu o presencio.
Alguns muitos outros têm o hábito de festejar o fim por meio de bombas e rojões... Então, a partir do culto à pólvora, posso imaginar como estão se sentindo. Eufóricos no nível máximo, mas  talvez mais tementes ainda ao silêncio.
Vários dos meus semelhantes têm o hábito do entretenimento explosivo nesta época: outro dentre os outros hábitos que eu não entendo.

Neste último dia convencionado, estou como me permito ser: às vezes triste docemente, com os olhos preguiçosos e absortos no que produzem, isto é, o pensamento.
"Pensar é estar doente dos olhos", mas confesso que os meus desde sempre se puseram enfermos ao inventar a todo instante o que desejaram ver.
Creio que 2017 será diferente. Afinal, mudança é nossa única constância. Ainda assim,não é difícil presumir que em 2017 haverá a mesma pausa dos sabiás no gramado e que a pelagem dos gatos sempre lembrará a parcela macia de existir.

"O País das Esmeraldas" se não se puser ao longe da minha janela - muitas vezes, os homens reduzem as árvores em dinheiro - estará vivo em minha memória.
(Oro para que "O País das Esmeraldas" esteja a salvo).
É fácil crer que o movimento dos pássaros será igualmente viajante nos 365 dias de 2017 e que isso independerá do meu estado de saúde, social ou financeiro.
É possível prever a mudez dos tijolos semelhante ao das telhas, quer eu vá a Veneza ou à "Rua dos Douradores" de Bernardo Soares.
Se eu ler Montaigne, se eu conhecer Kierkegaard, é certo que as folhas continuarão a se espalhar secas quando se transmutarem em clorofila fora do prazo... E a morte e a vida continuarão de braços dados como sempre estiveram.

E eu...Sempre a mesma nas minhas modificações, na constância variada das sensações que ora invento, ora deixo-me inventar pelo que sinto.
Só.
Acompanhada de tudo que, por sua vez, se confisca no nada para voltar a ser pergunta.
Caminho. E olho para este espelho a refletir o rumor do vento nas folhas do Ipê  do meu quintal.
Morro um pouco como sempre. Invento histórias para isso, para renascer frente ao peso das constatações que me convidam a uma espécie de sono.
É assim, como noutro dia qualquer.

Sempre.




segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Do crescer (ou do Ad Infinitum).

Nem a temperatura nem a intensidade do toque foram os imaginados.
Tudo esteve de acordo com um modus operandi em oposição às expectativas da criatividade amorosa.
Ainda assim,
a escada de acesso a um corredor do tipo escolar não atuou como qualquer tipo de obstáculo rumo àquele lugar.
Uma espécie de sala de diretoria? O que era aquilo?

Havia uns olhos...muitos olhos que eu não sabia se eram curiosos e maledicentes. Deviam ser...
Ainda assim,
aconteceu intenso, vigoroso...
tão intenso e desejado que em meu lábio inferior foi criado uma espécie de calo. Daqueles calos resultantes após um período de pesada pressão.

Assustei-me um pouco, não suficientemente para que o desejo deixasse de ser irresoluto.
Sobre os olhos dois halos lunares marrons claros.
As roupas,
o corpo,
o calçado,
as pernas eram-me familiarmente diversas.
O modus operandi era de uma mecanicidade infantil e um tanto bizarra.

Um olhar específico de alguém freado pelo espanto, pela ofensa de um amor fora de forma.
Risos em dupla.
Não se importava mais com a fidelidade do amor? De qual amor estamos falando?
Não.
Queria.

Resolvidas as dúvidas pela metade, dirigiam-se...dirigiam-se, ainda que o medo.
Mas, praticamente em frente à porta daquele cômodo de tentativas, lá estava ele. Sozinho, o ar um pouco cansado. E lindo. Muito mais bonito que tudo, inclusive que todo o cenário escolar cujo chão e arredores eram didaticamente neutros. De uma neutralidade ensino público sem grandes pretensões.
Agora, os obstáculos propostos pela escada ineficaz tornaram-se ainda mais pequenos. Não podiam passar por conta do amor.

Cedeu o lado que lhe competiu ceder, ainda que a íntima contrariedade; concomitantemente às decisões veredictas da consciência: um empecilho.
Conversas, cumprimentos, farsas, esconderijos... E a gagueira.
E a gagueira, Deus do céu! E a gagueira.
Não sabiam o que fazer, nem o que pensar.
Graças a Deus, alguém resolveu chamar a prima mãe que pôs-se a conversar.
Tudo de volta à normalidade, ainda que os cabelos estivessem compridos! (?)

Mas, ao olhar, ao dirigir-se a mim...
Sua dislexia me incomodava penalizando-me diante daquele inevitável.
Minha tristeza de saber
que minha distância a medicava. Na verdade, medicava a todos.

Como antídoto para o desejo e muito provavelmente para o possível amor minha distância.
Tristeza medicinal, salutar.
Imaginauta, quem  lhe mandou querer aprender com Montaigne? Seu inconsciente, aluno aplicado, dispô-se a reter genuinamente o ensino.
Entendeu?


  • "É a primeira lição que os mexicanos ensinam a seus filhos, quando, ao saírem do ventre das mães, saúdam-nos assim: ' Filho, vieste ao mundo para suportar: suporta, sofre e cala-te.' "
  • "É preciso aprender a sofrer o que não se pode evitar."

E, Imaginauta, não há caminho de retorno: o modus operandi teu  tem sido por ti mesma ajustado para o modus crescendi ad infinitum.

Então, suporta!

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Entre a Górgona e Baubó.


Outra vez, vi-me refém do que senti e me assustei. Vinha eu pela copa, quando - repentino - deparei-me com o computador hospedeiro de um e-mail que significava outro compromisso! Logo eu! Se não tivesse ido beber água numa caneca, eu não olharia para o computador hospedeiro e, muito menos, vislumbraria uma das horripilantes facetas da Górgona!

Não importasse aonde eu fosse - lá estava ela a me petrificar! No lençol desarrumado, pelos travesseiros...  Até mesmo no vaso sanitário!
Inutilmente, tentei fechar os olhos. E o fiz... Mas, sussurrando, a Górgona me vinha com umas perguntas esfíngicas, daquelas neuras do tipo "Decifra-me ou te devoro". 
Passei o dia tal como a coxa de um frango... Um contrafilé muito mal passado... Sei lá, talvez uma carne de pescoço... A Górgona temperava-me com muito coentro ( "coentro" me remete à ideia de amargura, sabe lá Deus o porquê disso!)

Chorei muito! Olhava para mesmice do que eu não fazia sentido pra mim... 
Pensei em "saudade cósmica", mas, meus destinatários fantasmagóricos não deixaram qualquer endereço para o envio das minhas lágrimas missivas!
Desisti.

Pus os pés na terra, os artelhos por entre o gramado. Formigas, abelhas, pragas e pólen... Sorri!
Mal podia saber que, ao sentar no degrau da pequena escada, eu encontraria o apego a um pedregulho... De novo a tal da cristalização. E a Górgona!
De nada adiantavam as formigas, nem as abelhas... O frio nem mais se contrariava sob o mormaço... E o que diriam as nuvens me vendo naquele estado? Também não me importava aquela opinião ora rarefeita ora desabante!

Resolvi ligar a tevê. Assistir a novelas antigas! Sorri algumas vezes.  Mas, aí, ao cabo do capítulo, novas lágrimas! E a Górgona! Enfeitando minhas olheiras. Reivindicando novas rugas...
E se eu tomar um café com pão com manteiga na padaria? Que Górgona resistiria a este mimo? A minha! Pois foi a ação de voltar para casa e me ver sozinha, para me ver prostrada no escuro, ou melhor no semiescuro - esconderijo dos vermelhos do poente.
Foi quando, numa tentativa de ultimato, decidi me valer das arapucas filosóficas! Talvez a Górgona gostasse desses entretenimentos, afinal, desde a Grécia antiga que tentam explicar ou desenhar as dores que nos fazem existir assim: tão lacrimosamente... (pensava comigo).
Apelei para palestras virtuais...filósofos contemporâneos...
Falaram de Aristóteles... Hum! É... talvez...
Depois do moço do pessimismo elegante e genuíno chamado Schopenhauer... Oba! Esse aqui faz mistureba entre vontade, representação, melancolia e tédio... Já tão falando a língua que eu arranho muito mal...
E, na sequência: Bum!!! Nietzsche!! A imaginação ! A criação! 
Como não me lembrar de Cecília e do truta chegante Baudelaire?
Foi então que houve a miraculosa menção à Baubó! A Figura mitológica capaz de defrontar a Medusa com seu deboche! Epa! Lembraram-me de uma outra eu que esperava desanimada no banco de reserva!
Olha, eu poderia explicar  a origem destes personagens... Mas, hoje não! Procurem  no tio Google! Não sei se vocês têm o ingênuo hábito de encarar a Górgona, lidar com a tal sem qualquer tipo de artifício...  Bem, talvez a pesquisa os ajude na defesa frente ao monstro... Boa sorte!

Por hoje, após tanta fadiga, só desejo mesmo contemplar o que há debaixo da saia de Baubó! 
Para minha graça, a velhinha sapeca fez-me lembrar do quanto isso tudo pode ser ridículo! Trágico! Risível!
Um pouco mais consciente, rio agora das passagens desse dia repleto de forças gorgôneas que, aliás, se finda em deboche 'baubóstico" (diga-se de passagem!)
Salvei-me!
Vamos ver as cenas dos próximos capítulos em que, possivelmente, haja novos surtos existenciais... 
Como me portarei diante do encontro dessas duas senhoras que fazem de mim o que venho me tornando?
Quem viver, não sei se perde ou não por esperar...
(Já avisamos que qualquer semelhança com a ficção não é mera coincidência.)
Resultado de imagem para górgona da vinci

"Górgona" - Da Vinci

Resultado de imagem  Uma das representações de Baubó.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A visita da velha senhora

A senhora apresenta-se novamente: olhos obscuros, lábios circunspectos (que sorriem de um leve arquear superior, ainda que imperceptível).
Como de hábito, vem trajada de negro. Alguma peça da vestimenta esvoaça cinzamente, enquanto a brisa imaginária sopra sobre a cortina inexistente de uma janela recém-inventada.
Sua presença se impõe diante das letras que tropeçam confusas, dada à soberania de quem as observa. Põem-se miudinhas, coitadas, mas persistem.

A grande dama, a visita da velha senhora que não é uma das personagens de Cacilda Becker. Esta dama antiga sempre requer de mim esforço, silêncio e displicência solene.
Acena-me de longe e rítmica se aproxima. Seu cumprimento é sutil e, no entanto, informal. Sabe que somos velhas e grandes conhecidas.
Aquiesce com os olhos baixos a agudeza trágica da minha percepção. Resisto à sua companhia, vegetando-me no corpo renovado pela chuva do gramado: _ Tudo cresce a despeito da estética daninha já florida. 
As árvores deixam-se ver de seus hábitos longínquos: noviças e sorores da ordem Sacro Santa das Clorofiladas. Oração vegetal, missal dos troncos. Penitência dos galhos e o rosário vermelho da contrição.

Retorno, na esperança de que ela já tenha desaparecido. Partida tão invisível quanto a chegada. Mas não: a Melancolia tece como uma parca de seu antigo tear envelhecido. Resoluto, sentencial. 

Do meu imenso respeito, ouso oferecer-lhe um chá: talvez lhe convenha a erva cidreira da ternura pacificadora das minhas infâncias.
Sento-me. 

Ainda hesitante e amedrontada, resolvo então fazer-lhe companhia. Estar com ela.
Encontramo-nos uma frente à outra agora: espelho solto entre a ida e a vinda do meu balanço sozinho.
E a Senhora D. Melancolia parece pacientar para ouvir minhas histórias, fazendo ouvidos atentos, se entretendo de mim.