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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Ponderações coxas

" - eu mesmo sozinho conversei. Ser forte é parar quieto; permanecer."
(Guimarães Rosa)



A angústia tem elo com o efêmero, enquanto a tristeza concerne ao eterno.
A angústia é intermitente, quase concreta 
e a tristeza carrega a duração consigo, se escondendo. Em disfarce.

A angústia vai e vem, 
bate a porta que pensávamos fechada 



e nos sufoca.







sábado, 22 de abril de 2017

Por onde andará a minha alegria?

"Querer bem as minhas alegrias." (Guimarães Rosa)

"Retirai-vos em vós, mas, preparai-vos primeiramente para vos receber. Seria loucura fiar-vos em vós mesmos se não sabeis vos governar." (Montaigne)


Eu não posso ser a sua alegria. Nem você a minha! O que podemos fazer é trazer para perto a sua alegria da minha, não é mesmo? Mas hoje, eu não sei aonde a minha alegria foi parar. Acho que foi dar uma volta e até agora não voltou pra casa. Onde será que ela está numa hora dessas?
É bem provável que esteja em algum lugar bucólico... É a cara da minha alegria fazer isso... 
Um lugar bucólico em que o sol não é quente. (Aquele quente que torra as folhinhas e a paciência da gente). Um lugar em que há montanhas robustas e altas. Um lugar-comum paradisíaco onde o capim é extremamente cheiroso e muitas borboletinhas pequeninas. Talvez sejam vermelhas ou amarelinhas. Existe um córrego ou um riacho, minha alegria não me comunica ao certo. Mas, há um caminho percorrido por água azul geladíssimo safira. A água se desregulariza por conta das pedras que não são tão grandes não!
O sol aquece à maneira como eu escolho que ele aqueça. E não há ninguém comigo...
E é sempre assim! Sempre que imagino o estado da minha alegria, acontece o sentimento espaço da solidão!
Talvez minha alegria seja assídua leitora de Rousseau, embora não saiba os devaneios de cor e salteado. Minha alegria talvez ande discípula (ou talvez, sempre o tenha sido inconscientemente) dos ensaios de Montaigne e acredite que minha alma possa mesmo se fazer companhia.
Minha alegria anda longe...bem dentro de mim, à espera de que minha alma se prepare - cada vez mais aos pouquinhos - para enfim o reencontro cara a cara.
Minha alegria anda escapando para algum lugar de mim que conheço muito muito pouco, pois ninguém me deu qualquer mapa ou planejamento de nada. Muito menos de como saber do paradeiro da minha alegria! 
Ninguém me disse "Vá para esquerda, a alegria tem cara de ser canhota!" ou "Vá para direita que é onde permanecem os eleitos!" "A alegria pertence aos eleitos!!!"
Ninguém aqui do lado de fora, onde há ruídos que não convêm de forma alguma à minha natureza, sabe dizer se já se sentou ao lado da própria alegria para um bate papo em silêncio absoluto! Aliás, as pessoas daqui do lado de fora também não falam de suas tristezas, nem mesmo na intenção de aprofundar o conhecimento de que não entendemos de nada! As pessoas do lado de fora parecem estar certas. Mas, de que exatamente?
Enquanto isso, respeito o conhecido destino ignorado da minha alegria, pois é certo que  não sei onde ele fica no momento! Entretanto,  suspeito da cara dele: as maçãs do seu rosto ficam avermelhadas toda hora com a revoada das borboletinhas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Lero com o vento


Não me venha com esse estilão de "um vento com todas as almas" que eu conheço você! E, definitivamente, você não faz o gênero Grande sertão: veredas, meu velho...
Sabe por quê? Porque o vento do interior tem sempre essa mesma cara! Sempre essa mesma ideia! Enxugar tão completamente, mas, tão completamente o ar que o árduo trabalho da chuva de tentar banhá-lo um pouco se põe completamente perdido!
É...Vão dizer aí que tudo não passa de generalização de gente calorenta como eu! Tá bom! "O vento só fala do vento." como diz o  mestre Alberto Caeiro! Mas, moro no interior há mais de 30 anos e, até agora, foi raro ver algo diferente de: chove. Refresca (ah, que amor!). Vem o vento. Enxuga, seca, resseca o ar. Varre a umidade não sei pra onde. Deixa o céu azulíssimo! (não se fie nessa beleza) Depois esfria. Esfria mesmo de bater o queixo. No dia seguinte já menos frio. E aí as temperaturas começam a subir, a subir e de tão altas que ficam, a gente toma aquele porre de  calor! Depois do vento vem o calor! E ponto! E muito, mas, muito calor mesmo! De verdade! Com certeza absoluta! É isso mesmo de novo! Pleonasticamente fervendo! Do insuportável redundante!
É por isso que não vou com a fuça desse vento travestido de Guimarães Rosa! A mim não engana! Só me causa fastio mesmo...


                                       
                       Zéfiro: o vento cortante de "A Primavera" de Boticelli

domingo, 10 de julho de 2016

Nada demais.

Passeando de bicicleta, vieram-me muitas reflexões e também lembranças. Tudo se misturava a sensações corpóreas-emocionais, sem me esquecer da pitada do místico que conferia  ao passeio a quentura das palavras de Guimarães Rosa:

"Até para a gente se lembrar de Deus, carece de se ter algum costume."

"_ Tenho que escrever tudo isso! " Pensava eu! Mas, após a semi-vontade, eu já havia me esquecido do princípio. A inspiração se enfraquecia diante da autonomia das imagens.
Para não me perder no que pensei e senti, decidi (não muito articuladamente) dividir as inspirações em itens. Algo que para mim se parece com o balancete mensal ou diário das corporations . Por isso, quando me organizo, me incomodo. Mas, me organizo (e me incomodo). As palavras se apresentam à inspiração seguindo sua lógica de signos e, pelo menos no meu ser, se põem à revelia. (Lamento se houve confusão de conceitos linguísticos! Lamento e prossigo, certo?).

(Soudain, j'ai eu envie de me coucher sur la pelouse et de permettre folle et douce que tu me baises) Mas, isto não estava no script! E os orientalizados têm razão quando dizem que a mente é a louca da casa.

Vejo formigas e penso que está na hora de voltar a desenvolver a ideia inicial. As formigas invadem meu pé direito protegido (felizmente) pelo calçado.
E penso: "_ Será mesmo possível uma reconciliação com esta categoria de artrópode neurótico? Parecem funcionários de multinacionais apressadas! Com a diferença que não usam paletós" (será?!)
Bem... me cansei agora... Olho para cima para lembrar "o que era mesmo".
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Enquanto eu andava de bicicleta, uma pergunta insistente vinha ter com o espírito pedalante:

 "_ Somos parecidos em que com o lugar onde nascemos?"

Tenho para mim, aliás, esta teoria não é minha, que acabamos parecidos com aquilo que fazemos e com o que nos afeiçoamos e desafeiçoamos e votamos a nos afeiçoar. Para ser explicativa: como numa gangorra de sentir e perguntar por que sentiu. (O didatismo também se chama meu nome, posto que me alivio quando as coisas ficam claras para as pessoas. Sou professora).
Mas, sou confusa, porque vivo muito do que eu crio. Porque o que eu crio é uma das tábuas de salvação para não decretar, de uma vez por todas, que viver é um sacrilégio. (!) 

O fato é que olhei para minha cidadezinha do alto do pedal e do bairro meio longínquo onde estava.

O sol, o leve suor no rosto, as árvores que estavam ao longe, as árvores que estavam ao perto, a incidência da luz sobre a tênue camada de poeira, o nada, a quietude de breves frações momentâneas, o espaço não sentir. 
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Eu nasci numa pequena cidade do interior de São Paulo. Nela não há mais o padeiro vendendo pão e biscoito numa Kombi  incrementada. A rua da casa da minha avó... a casa da minha avó - meu asilo político aos cinco anos de idade (a crise da tenra idade).
§

Gosto de Descalvado. Canso de Descalvado. (Faço as pazes com Descalvado?)
Descalvado com suas imensas residências assobradadas. Fortalezas de vidro, grafiatos que, ao cabo dos tijolos dos muros, existe um cercado elétrico a ofender passarinhos e passantes. Descalvado dos carrões e de " invejas que dão movimento demais aos olhos". Minha cidadezinha onde "Toda paz da Natureza sem gente/Vem sentar-se a meu lado". 
Descalvado - terra de nome árido, onde há casas antigas e uma chapada em miniatura em que o Domingo se põe ao sol.

Olho para os galhos da árvore minha vizinha. Eles fazem lembrar esmeraldas...Esmeralda é a pedra do anel de professora da minha mãe...

Mas, os artrópodes neuróticos se foram e deram lugar para o canto oco de alguma pomba pousada invisivelmente. O Domingo se deixa ir aos poucos. Minha bicicleta está inerte e minhas pernas doem um pouco por causa do passado. 
Solidarizo-me com o que não sei, mas, que de alguma forma percebo estar em comunhão com minhas constatações ora vazias ora frágeis.
Volto a sentir. Meus olhos veem o limbo, o Resedá trajado de inverno.
Ponho um ponto final. 
Esse Domingo já está começando a cheirar à missa das 7!