domingo, 29 de abril de 2018

Trova do campo

A João Antonio Pires, meu pai.



A lágrima que escorre percorrendo não é de quentura triste.
Desta vez, cálida, molha meu rosto de um fino caminho ritmado
lentidão reta que, nem portanto sabendo do abismo para o qual se precipita,
desiste de umedecer minha face.

Nessa gota longínqua, do tamanho do meu pequeno rosto e do grande dos olhos,
cabe tanta música de saudade
cabem riachos, estradas de fim incerto, canções, melodias de um inocente céu estrelado.
cabe rima cujos versos só eu mesma entendo
mas que, na verdade, eu sempre ouvira.

 Agora sinto compreendendo - da amplidão de todo amor,
A síntese da sua poesia.
que é luar, árvores, canção
e que é fonte a da minha.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Recueil - Terre à bonheur, 1952





J'ai vu le menuisier
Tirer parti du bois.

J'ai vu le menuisier
Comparer plusieurs planches.

J'ai vu le menuisier
Caresser la plus belle.

J'ai vu le menuisier
Approcher le rabot.

J'ai vu le menuisier
Donner la juste forme.

Tu chantais, menuisier,
En assemblant l'armoire.

Je garde ton image
Avec l'odeur du bois.

Moi j'assemble des mots
Et c'est un peu pareil.

(Eugène Guillevic)

Résultats de recherche d'images pour « Léger Objets dans l'espace 1928 »Ferdinad Léger

domingo, 25 de março de 2018

A espera

"L'espérance d'être soulagé 
lui donne du courage pour souffrir."

Marcel Proust


"Cyrano de Bergerac chega mesmo a proclamar
a fraternidade entre o homem e as couves, 
imaginando nestes termos
o protesto de uma delas ao ser arrancada da terra."

Italo Calvino


Há quem espere a chegada de um ônibus, demorando boa parte de seu tempo nessa postura ora sentada ora em pé, mas constantemente entediante. Há aqueles que esperam a chegada de um filho que já nasceu ou prestes a nascer. Há outros tantos que esperam a vinda de um novo amor ou da próxima semana, do outro dia e do milênio seguinte.
Há também os que aguardam o anúncio do próprio nome numa sala de espera onde, na maioria das vezes, existem revistas do último réveillon da celebridade da vez e a televisão a emitir assuntos cuidadosamente aleatórios a qualquer explicação que confira sentido em permanecer ali existindo.
Hoje passei grande parte da minha existência à espera de presenciar o nascimento das primeiras estrelas. Sei bem que essa coisa de 'nascimento' na verdade é duvidosa, uma vez que esses brilhos ficam no céu o tempo todo morrendo, colidindo, locomovendo-se anos-luz na nossa frente. Mas, passei tempo da minha existência à espera daquelas estrelas vespertinas, numa espécie de testemunho desses corpos celestiais mais ousados que, a despeito do reinado do sol (ou do processo de partida dele), não se sujeitam ao breu completo para mostrar seu fogo azul, prata, vermelho, amarelo intermitente.
Deitada, passei tempo no exame da espinha dorsal das antenas nos telhados, admirando a insólita comunicação entre a concretude das hastes de metal e das tais ondas: máximas representações de abstracionismos vários.
Esperei a pressa dos pássaros à procura de abrigos já familiares.
Esperei a velocidade do vôo, temendo a preponderância da treva prenunciada por alguma voz de rapina que gritava de um canto já escuro.
Tudo isso, após colocar-me ao lado de plantas cultivadas ou daquelas partidárias da rebeldia espontânea de polinizações desimportantes, daninhas. 
Por muitos instantes, não vi diferença alguma entre meu existir e o existir de folhas, espinhos, galhos secos e nascentes, pequenos besouros anônimos e dos passarinhos. Aliás, um beija-flor chegou a voar parado bem perto: Absoluto.
Todos acolheram a demora, numa espécie de versão inabitual. E não houve quem não se pusesse no mundo de forma indiferente a apenas estar. Sem qualquer outro propósito. 
Todos estiveram e tornando-se  estão os mesmos outros o tempo todo. 

Em todo o tempo.

domingo, 11 de março de 2018

"Da saudade"




A natureza da saudade é ambígua: associa sentimentos de solidão e tristeza, - mas, iluminada pela memória, ganha contorno e expressão de felicidade. Quando Garrett a definiu como "delicioso pungir de acerbo espinho", estava realizando a fusão desses dois aspectos opostos na fórmula feliz de um verso romântico.
   Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro já o transforma em passado. A vida é constante perder. A vida é, pois, uma constante saudade.
   Há uma saudade queixosa: a que desejaria reter, fixar, possuir. - Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem, como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência de eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência: imortalizá-las em amor. O verdadeiro amor, é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum.



(Cecília Meireles - Crônicas em geral)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

"os grandes gestos da aristocracia da individualidade, 
o capa e espada sem balcão"

(Livro do Desassossego)

Dou-me o luxo do pasmar-me constante e subitamente.
Escuto todos os sons, inclusive aqueles que se supõem inaudíveis porque se apressam.
Às vezes, digno-me a estar em lugar algum bem na minha frente.

Soletro palavras tortas
Pelo avesso das tentativas de serem legíveis, pronunciáveis
Renuncio as expectativas.
Dou-me o luxo do pasmar-me em lugar nenhum.

E fico com algumas letras, na companhia do que subsiste somente de ideais fantasmagóricos.
De gente que nunca existiu de fato e que sempre arrastou seus andrajos perfeitos.
Seus andrajos perfeitos... e rotos impassíveis.

Não estou para ninguém que se dobre
que está para as mangas amarrotadas,
que limpa os pés em capachos de seda e bebe aguardente em cristais da boêmia em pleno meio dia torpe.
Estou em toda parte a segurar um copo vazio que se esqueceu.
Não estou e por isso as pálpebras me pesaram de suas franjas sinceras em desalinho.
Não estou.
e nunca estarei neste agora áspero do qual sorvo apenas
abandono.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Temperalturas

Lábios de navalha que os meus tocam sem sangrar
Beijos em cacos de vidro.

Lâminas vertidas em pétalas
Um caleidoscópio úmido,
tépido,
cortante,
Tão mais macio quando se prolonga.


                                                                                                detalhe: "Alegoria do triunfo de Vênus"

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Pausa

Causam-me grande impacto as verdades e a beleza.

Quando contato algo verdadeiro ou o formato vário da beleza,
fico zonza. Meu ser pequeno se perturba e teme não suportar a descoberta.
Assim,
é necessário que eu pare um pouco e retorne às 'banalidades', às menorizações diversas para que eu retorne outra vez. Pequena.

Tenho medo de ser tragada ou devorada pelo grandioso que mora em mim e de quando a janela se abre para a correspondência com a infinitude lá fora do daqui de dentro...