terça-feira, 19 de dezembro de 2017







"Je crois par quelque ordonnance du ciel: nous nous embrassions par nos noms."

Montaigne - "De l'amitié"



Detalhe de "A primavera" (Sandro Botticelli)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Transição inconclusa

Amor náufrago maneirista,
Claro-escuro alternado em dor e deslumbramento...

Um dia, me deixei tragar pelos olhos de um oceano de palavras mudas e cálidas.
Afundei.
Fui até o nascimento da última anêmona, no final da curva obscura do último abismo cintilante.

Morri.
Transmutei-me em rocha estilhaçada...
concha partida por entre mil faces marinhas.
Semblantes de peixes, olhos, guelras...garras, espinhos, escamas translúcidas...

Morri novamente, desta vez infinda pela última vez.
Hoje trago experiências de sobrevivente
de amores aprofundados em mágoa e encantamento.
Vivo absorta com a cintilância das  areias,
caminhando até o último cais

para lugar nenhum.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

como uma pérola antiga
no fundo de uma pequena caixa... no meio reluz
não é para agora a palavra exata
irretocável
o perfeito empoeirado.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Erato - musa da poesia

Diante de um mundo vil e tacanha,
Fico na cama com Camilo Pessanha!  😃

                                                                         "Erato" - Sir Edwuard Poynter - 1870



I.

Sente-se esmorecer como um perfume.
As madre-silvas murcham nos silvados
E o arôma que exhalam pelo espaço,
Tem delíquios de gôso e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.
.......................................................................
Eis tenho-a junto a mim,
Vencida, é minha enfim,
Após tanto a sonhar...
Porque enstristeço assim?...
Não era ella, mas sim
(O que eu quiz abraçar),
A hora do jardim...
O aroma de jasmim...
A onda do luar...

(Trecho de "Crepuscular")




II.
E sobre nós cahe nupcial a neve,
Surda, em triumpho, petalas, de leve
Juncando o chão na acrópole de gelos...
.........................................................................
E eis que resta do idyllio acabado,
- Primavera que durou um momento...


(Trechos de - "Phonographo")



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Saúde das vistas.


Amava com desespero.
de um amor semi-cerrado, inflamado e ardente.

Esfregava-lhe as pálpebras pra ver se o amor saía,
que chegou mesmo a esfregar com deus
lacrimejando!

Estava cega de amor
Em condenação ao grau máximo da miopia afetiva...

Um dia,
enquanto chovia sobre a íris devotada,
começou a enxergar pequeno e devagar.

Era o colírio de nuvens pagãs que iam lavando lentamente
o basso daquela visão amorosa antiga.

Hoje usa letras de contato
Em forma de versos.

E de longe parece curada
Enquanto que de perto...





terça-feira, 17 de outubro de 2017

Aspirante de Perseu.

Alguma coisa morre. e estou em pleno funeral de algo que me embalava.
Pêsames a meus sonhos impossíveis. Sucumbiram soterrados e por isso a alma se queda asmática.
Sou esquife, as flores, as velas que se extinguem e a solidão que entoa preces a ninguém.
A extrema-unção constante de todas as ilusões. 
Ponho os devaneios deitados, a coragem ajoelhada, 
A dor em riste.
Também o corpo se consola imóvel num sono.
Pois ando comovida com meu olhar 
e os lábios...

Algum amor morre e estou em pleno luto em todas as vezes do sorriso.


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"Sobre a relação entre Perseu e a Medusa podemos aprender algo mais com Ovídio, lendo as Metamorfoses. Perseu vence uma nova batalham massacra a golpes de espada um monstro marinho, liberta Andrômeda. E agora trata de fazer o que faria qualquer um de nós, após uma façanha desse porte: vai lavar as mãos. Nesse caso, o problema está em onde deixar a cabeça da Medusa. E aqui Ovídio encontra versos (IV, 740-752) que me parecem extraordinários para expressar a delicadeza de alma necessária para ser um Perseu dominador de monstros: 'Para que a areia áspera não melindre a angüícoma cabeça, ameniza a dureza do solo com um ninho de folhas, recobre-o com algas que cresciam sob as águas, e nele deposita a Cabeça da Medusa, de face voltada para baixo'. A leveza de que Perseu é o herói não poderia ser melhor representada, segundo penso, do que por esse gesto de refrescante cortesia para com um ser monstruoso e tremendo, mas mesmo assim de certa forma perecível, frágil." (Ítalo Calvino em Seis propostas para o último milênio)