quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

"os grandes gestos da aristocracia da individualidade, 
o capa e espada sem balcão"

(Livro do Desassossego)

Dou-me o luxo do pasmar-me constante e subitamente.
Escuto todos os sons, inclusive aqueles que se supõem inaudíveis porque se apressam.
Às vezes, digno-me a estar em lugar algum bem na minha frente.

Soletro palavras tortas
Pelo avesso das tentativas de serem legíveis, pronunciáveis
Renuncio as expectativas.
Dou-me o luxo do pasmar-me em lugar nenhum.

E fico com algumas letras, na companhia do que subsiste somente de ideais fantasmagóricos.
De gente que nunca existiu de fato e que sempre arrastou seus andrajos perfeitos.
Seus andrajos perfeitos... e rotos impassíveis.

Não estou para ninguém que se dobre
que está para as mangas amarrotadas,
que limpa os pés em capachos de seda e bebe aguardente em cristais da boêmia em pleno meio dia torpe.
Estou em toda parte a segurar um copo vazio que se esqueceu.
Não estou e por isso as pálpebras me pesaram de suas franjas sinceras em desalinho.
Não estou.
e nunca estarei neste agora áspero do qual sorvo apenas
abandono.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Temperalturas

Lábios de navalha que os meus tocam sem sangrar
Beijos em cacos de vidro.

Lâminas vertidas em pétalas
Um caleidoscópio úmido,
tépido,
cortante,
Tão mais macio quando se prolonga.


                                                                                                detalhe: "Alegoria do triunfo de Vênus"

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Pausa

Causam-me grande impacto as verdades e a beleza.

Quando contato algo verdadeiro ou o formato vário da beleza,
fico zonza. Meu ser pequeno se perturba e teme não suportar a descoberta.
Assim,
é necessário que eu pare um pouco e retorne às 'banalidades', às menorizações diversas para que eu retorne outra vez. Pequena.

Tenho medo de ser tragada ou devorada pelo grandioso que mora em mim e de quando a janela se abre para a correspondência com a infinitude lá fora do daqui de dentro...

terça-feira, 19 de dezembro de 2017







"Je crois par quelque ordonnance du ciel: nous nous embrassions par nos noms."

Montaigne - "De l'amitié"



Detalhe de "A primavera" (Sandro Botticelli)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Transição inconclusa

Amor náufrago maneirista,
Claro-escuro alternado em dor e deslumbramento...

Um dia, me deixei tragar pelos olhos de um oceano de palavras mudas e cálidas.
Afundei.
Fui até o nascimento da última anêmona, no final da curva obscura do último abismo cintilante.

Morri.
Transmutei-me em rocha estilhaçada...
concha partida por entre mil faces marinhas.
Semblantes de peixes, olhos, guelras...garras, espinhos, escamas translúcidas...

Morri novamente, desta vez infinda pela última vez.
Hoje trago experiências de sobrevivente
de amores aprofundados em mágoa e encantamento.
Vivo absorta com a cintilância das  areias,
caminhando até o último cais

para lugar nenhum.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

como uma pérola antiga
no fundo de uma pequena caixa... no meio reluz
não é para agora a palavra exata
irretocável
o perfeito empoeirado.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Erato - musa da poesia

Diante de um mundo vil e tacanha,
Fico na cama com Camilo Pessanha!  😃

                                                                         "Erato" - Sir Edwuard Poynter - 1870



I.

Sente-se esmorecer como um perfume.
As madre-silvas murcham nos silvados
E o arôma que exhalam pelo espaço,
Tem delíquios de gôso e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.
.......................................................................
Eis tenho-a junto a mim,
Vencida, é minha enfim,
Após tanto a sonhar...
Porque enstristeço assim?...
Não era ella, mas sim
(O que eu quiz abraçar),
A hora do jardim...
O aroma de jasmim...
A onda do luar...

(Trecho de "Crepuscular")




II.
E sobre nós cahe nupcial a neve,
Surda, em triumpho, petalas, de leve
Juncando o chão na acrópole de gelos...
.........................................................................
E eis que resta do idyllio acabado,
- Primavera que durou um momento...


(Trechos de - "Phonographo")