terça-feira, 30 de setembro de 2025

Tão somente metáforas

 Mostro-me a mim mesma,

por meio de metáforas.

Frankenstein,

Zumbi,

corredeira que deságua no meio da estrada de enxofre.


São tão somente metáforas

Professoras,

Profetisas,

Procissão das almas  de Todos os Santos.


Não as tema!

escute-as

contemple a técnica de pinceladas à maneira de Van Gogh!


Elas assustam!

E são tão belas...


terça-feira, 23 de setembro de 2025

Passarinho o bastante

 Depois de um certo tempo em paragens francesas, que tanto, tanto, mais tanto amo,

voltei pro Brasil um tanto quanto gonçalvina.

Senti falta dos passarinhos. Da profusão deles, na verdade.

Como de fato nossa terra é jovem, ela é, portanto, mais sons e barulhos.

É mesmo verdade a máxima " As aves que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá". Mesmo por que, não existem tantos passarinhos... O Velho Mundo é mais circunspecto, até no ar. Não que não seja alegre. É! De uma alegria mais silente, pousada, heroica.

A alegria pueril e absorvida pelo arco-íris na caneta esferógrafica é genuinamente brasileira. Bem como, o fato de dizer que amamos (o tempo todo). E que estamos felizes de estarmos juntos.

E a quantidade de passarinhos que voa veloz e inconsequente, no Brasil, canta a toda hora: 

Somos vivos! Somos meninos! Somos vivos! Somos meninos!  

Somos os meninos que brincam e dizem cantando e voando que somos felizes e vivos de tanto vôo.

Sentirei falta dos altivos corvos parisienses. Os que fazem seu petit déjeuner en plein air da carne morta de passarinho anônimo. São belas aves velhas! Mas, não são passarinhos!

Vimos algum bando de pardais e os familiares pombos. (Alguns enormes).

Mas, outra vez e de novo:

Não são os nossos passarinhos!


Os nossos, eles são passarinhos o bastante para cantar muito alto!







domingo, 10 de agosto de 2025

Coração aprendiz

 

"As plantas ensinam mais suaves coisas. 

Elas mesmas não resistem à grandeza do oceano, e entram numa triste melancolia,

feridas pelo vento implacável das praias, 

e oprimidas por esse ambiente salino que o mar propaga tão alto e tão longe."


(Cecília Meireles - "Nossas irmãs, as plantas")




No coração, o mar

Revoltou-se de repente. Pois um ciclone inesperado soprou muito forte.

E a grande onda se precipitou sobre ele. Este coração de criança no jardim de sol, sombra e babosas.


Assustado, mas, corajoso

O coração bateu muito forte. Desesperado. Como um galope cego na estrada da noite sem cor.

Bateu forte

e forte

gritou, entoando o nome do Mestre da Luz de mãos abençoadas e benfazejas.

Gritou seu nome, mesmo se afogando de medo.


O coração botou pra fora de casa o terrível monstro marinho, que nada tinha a ver com seu jardim de infância.

Bastante molhado de sal, ele espera o sargaço diminuir

e, aos poucos, as plantas e as flores retomarem seu curso cíclico e colorido.


terça-feira, 26 de novembro de 2024

Aquele clima

 As emoções. Ah, as emoções...

não são tão criativas. 

Só variação do mesmo tema.


Acordei.

Coloquei alguns baldes novos sob goteiras velhas.

Não! Não consegui reparar o teto da melancolia. Sempre pingando.

E faz frio! 

E está escuro! 

E eu me sinto, novamente, 

sozinha

E a janela se abriu, de novo, com o vento que venta sempre do mesmo lado. Só que mais bravo!


Fui tentar fechar a janela que vi encupinzada em hora tão imprópria. E o que levei foi uma bordoada!


Respiro,

 Fecho os olhos,

Outra vez.

Tudo é ilusão.



domingo, 4 de fevereiro de 2024

sem pé, nem cabeça

 A pequena donzela acredita em certas invenções que a fizeram entender - por via de mão única - o que é o amor. É exigente, em sua expectativa de jovem coração sentinte. Excessivamente magoado, pois o mundo amoroso é outra coisa que descobriu que não sabe.

A jovem dama aprende, lentamente, a caminhar descalça. Disposta da metade do séquito de seus pensamentos fiéis na obsessão por dominar a natureza de tudo o que conhece. Mal. 

Por vezes, esta mulher petite fille deseja o colo soberano de todo o sol no azul. Luz somente para ela. Mas, a luz é de campo e não de jardim. Mãos monárquicas com gesta de roça. Semear, adubar. Tempo certo de colheita.

Cafezal.

Perdeu-se. Desacostumada no não ter. Ou ter de outro jeito. Ser de outro modo é capinar.

sem o esforço de se esperar somente o que sequer... pois tudo é caminho.

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

indiferença olfativa

Sinto-me isolada pela incapacidade de não sentir o mundo

pelos seus cheiros.

Sinto-me entristecida. Um pouco desumana. Posto que me esvaio também em desafeto.

Degusto o frio, o quente. Sem mais, nem menos.

Não consigo alegrar-me

tudo é uma interminável indiferença insípida. enquanto espero cercada por este definitivo ornado de nada.

Toda a experiência se encapa de cinza.

Esqueci-me de todas as outras cores. nem me lembro se algum dia existiram mesmo na minha existência.

Me esqueço. Tão sozinha.Inumana. 

Um restolho de pó.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Toque de recolher

 A ansiedade toca sua sirene ensurdecedora.

Possibilidade de bombardeio.

Onde, se tudo se encontra já devastado?

Escombros em ocos imaginários.

Torpedos de canções de ninar.

choros de terra seca.

Pó de barulho

Sobressalto inerte.

meu abrigo de papel celofane

minha solidão se intercala na companhia de toda orfandade do mundo.