terça-feira, 5 de setembro de 2017

Teimosa

Esquece: Assopra!
acendeu
Esquece: Assopra!
acendeu de novo
Esquece: Assooopra!!
acendeu outra vez
Esquece! Ass :
 acend...
Assopra!  Assopra!!

Acendeu.
Lembrança acendeu.

Esquece...








quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Despertador vocabular

Às vezes, ocorre-me de despertar com uma espécie de frase ou verso sussurrado.Mal abro os olhos e as palavras estão lá - sentenciadas. Talvez um apelo, um resquício do bocado do sonho que ficou por último, aquele atrasado fim de sonho apressado pela consciência bocejante.
Hoje foi assim. Antes de abrir os olhos, mas já sentindo o corpo despertando, algumas palavras emaranharam-se à fronha, ao cobertor. Enrolaram-se no lençol. Participaram do claro-escuro, do frio-quente que é acordar. 
Muito provavelmente, a experiência seja mais interessante do que as frases ou os versos ou sei lá o que quer que sejam esses termos:



O corpo - Asa concreta de betume
                           Linguagem




Registra o lápis na caderninho do criado mudo, manuseado sonolentamente. Ô, pobre!
Pronto.
Acordei?
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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Ponderações coxas

" - eu mesmo sozinho conversei. Ser forte é parar quieto; permanecer."
(Guimarães Rosa)



A angústia tem elo com o efêmero, enquanto a tristeza concerne ao eterno.
A angústia é intermitente, quase concreta 
e a tristeza carrega a duração consigo, se escondendo. Em disfarce.

A angústia vai e vem, 
bate a porta que pensávamos fechada 



e nos sufoca.







terça-feira, 25 de julho de 2017

O bosque sagrado

Minha existência hoje talvez possa ser melhor definida por lágrimas. Comoção, vibração...
As letras não satisfazem o que gostaria de expressar. Duvido que algum dia também farão sentido quando me lembrar. De que nesta tarde um Força indefinível se dirigiu a mim e permitiu que eu a contemplasse numa pequena porcentagem. A parcela ideal e exata que meu ser - em constante aprendizado, erro e transição é capaz de suportar.
Mesmo assim, foi muito! E, mesmo passadas algumas horas, estou em reconstituição.
Talvez tenha sentido meus inúmeros términos e renascimentos de mãos dadas ali. Talvez tenha vislumbrado a Sinfonia entre a Vida e a Morte.
A Força daquela gigante, a inominável Benevolência que não ouso explicar porque não compreendo.
Tudo em mim vibra e se imanta. Se magnetiza.
Talvez também doa porque meu ser se lembre do que ainda não saiba em palavras.
Tudo vibra, tudo ressoa na ausência das palavras.
É tanto Tempo. Uma magnificência de encontros que a mim só é permitido ver com o sopro que me anima, com a luz que me possibilita estar em movimento e compreender intuitivamente.
Estive num Templo a céu aberto. Numa permanência vitalícia. Estive neste não sei onde que habita em mim e que me é ainda insuportável por conta de toda a Vida que existe.
Eu não sei de nada.
Eu só pude sentir. E ainda sinto por lágrimas. Por lágrimas que me banham me derramando em êxtase sobre minha pequena própria existência.
É difícil acreditar nesta Grandeza Inevitável. Justo meu eu habituado à pequenez. Justo meu eu acostumado a crer na fragilidade. Não coube em mim tanta Grandeza.

Eu ainda me derramo.





                                                     "Jupter et Sémélé" - Gustave Moreau

                                                "O bosque sagrado" - Arnold Böcklin

sexta-feira, 7 de julho de 2017

L’enfant assis sur le tombeau de son vent.

Je suis un enfant. Je suis toute seule, parce que je suis une fille.
Je regarde du côté, du côté droit tout bas. Puis, je bouge mon regard vers mes soupirs et je le tourne.

Mon âme  et sa toux. Silencieuse et profonde. La terre sèche de mes aventures. Mes larmes la touchent et mon âme y reste.
Il ne me faut pas les ruines sans merci des ceux-là qui ne chantent. Mes ruines gravitent là. Et puis rien.
Ce n’est pas non plus le coucher du soleil. Je sais pas quelle heure il est dans le temps de noces des cieux. Du jaune, du noir, du gris, du rouge se marient devant mes pensées.

Mon pied droit fait des cercles sur la surface de la terre qui empoudre mes passades. Mais, je suis assise maintenant. Sur... sur...
Il y a  du vent de mon deuil.
Mon front a sommeil. Et mon profil s’enchante de l’ambre que j’invente.
La douleur bâille et tout meurt tout le temps. Tout se défait ; c’est le futur rien qui n’empêche pas la beauté.

L’éblouissement de mes ongles solitaires se touche. Au sein du soi-même.
Pas de pourquoi de m’hâter. Parce que je suis là en train d’être aimée de la poudre.

Et fin.


Caspar David Friedrich, Evening Landscape with Two Men, 1830-35 (The Hermitage, St. Petersburg)


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Variações

Houve muito vento.
Vento. Vento forte. Ventania!
De uma ventania de bater janelas velhas e moças.
Foi como contemplar a força da natureza enquanto descontrole.
Pobres folhas tenras... pobre renda portuguesa... pobres folhas sem nomes... pobres folhas secas e bastardas.
E de ventania fez-se ciclone às vezes. Girando casas e vacas. Vitrolas, moscas desavisadas e também passarinhos.
Meu cata-vento manco. De pás inválidas.
Poeira. Terra ainda cobrem os olhos de fuligem
e os olhos fixos de braços cruzados.
É como contemplar a beleza das tempestades. A beleza dos furacões transtornados pelo efeito concomitante das brisas.
E o galo dos ventos não anuncia a hora.
E a rosa dos ventos fica zonza com tamanho barulho de sopro.

Houve muito vento.
Vento. Vento forte, vento havia.
E ainda há tempestades de papel de seda
com toda a escrita.

"Tempête de neige et mer" - William Turner

sábado, 6 de maio de 2017

"nele descansou depois de toda a obra que empreendera na criação."

O vazio.
O branco incolor da tentativa de alguma expressão.
O pensamento se cala e, no entanto, supõe alguma consciência de algum ritmo indiscernível.
Na rua. Sangue de pólen e veneno. Na rua. Uma árvore ontem abraçou o interstício entre céu e asfalto.
Na rua João de Barro é sem teto. Mendiga algum pedaço de terra por aí.
As aves, os insetos, a terra. Tudo está manchado de aço e dentes. Tudo se atropela pela retidão do alicerce.
Quem a mata?
Quem o verme?
Quem deixa suas mãos e braços cansados?
Quem se caleja e deixa pela rua um gosto de amputação lenta?
Tudo se mancha de esquecimento. Tudo se suja, enquanto a respiração não pára.
Há baile na rua agora. Regado a um canto lúgubre de mulher que se veste de deus que crê em sua voz (crê?)
E nada medra.

Escuto.
Estou ordenada a ser servida a este presente que elaboram, ainda que não se dêem conta da profanação desta festa.
Celebram.
Comem.
Engolem.
Pó.
Regurgitam clorofila pisada.
Escuto. Ouço. É necessário estar no agora daqui.
Sou parte da plateia desta arena.
Ao espetáculo hediondo meus aplausos invertidos. Todo meu reconhecimento anti-horário.
Estou presente. Ouvinte intimada.
Minhas mãos escrevem o que nem direito encerram.
Sou eu. Raízes e galhos mutilados.
Eu sinto muito todos os meus pêsames.
Morro também com o peso da chacina de lei por terra.
Sou esta árvore.