O infinito esteve de braços abertos
na discordância embalando a ausência
Sentada a mirar o molhado da terra.
O quente da tarde e a sombra me contando histórias
do cimento tatuado de bolor.
O silêncio num céu azul e o descanso de todos os gritos.
Nada parecia amar o que minhas pequenas mãos desenhavam.
Nada por todos os arredores dos meus olhos.
O caminho de ferro das minhas lágrimas e o adeus invisível perpétuo.
As formigas também caminhavam em linha reta para lugar nenhum.
Meus pequenos grandes olhos vendo para cima.
Um amor que se herdou de música, noite e solidão.
Um amor...
Um amor incompreensível por aquela idade do diálogo dos hortelãs com a grama.
Deixaram caído meu catavento, esquecido junto da roseira cujos espinhos eram tímidos.
Esqueceram de saudar meu amor que não se disse, por medo.
O quarto minguante da lua na ponta dos dedos foi visto por meu olhar perdido.
O vento calou minhas sílabas infantis.
Dormi. Porque sempre me fecharam os olhos.
E não mais.
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
terça-feira, 5 de setembro de 2017
Teimosa
Esquece: Assopra!
acendeu
Esquece: Assopra!
acendeu de novo
Esquece: Assooopra!!
acendeu outra vez
Esquece! Ass :
acend...
Assopra! Assopra!!
Acendeu.
Lembrança acendeu.
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Despertador vocabular
Às vezes, ocorre-me de despertar com uma espécie de frase ou verso sussurrado.Mal abro os olhos e as palavras estão lá - sentenciadas. Talvez um apelo, um resquício do bocado do sonho que ficou por último, aquele atrasado fim de sonho apressado pela consciência bocejante.
Hoje foi assim. Antes de abrir os olhos, mas já sentindo o corpo despertando, algumas palavras emaranharam-se à fronha, ao cobertor. Enrolaram-se no lençol. Participaram do claro-escuro, do frio-quente que é acordar.
Muito provavelmente, a experiência seja mais interessante do que as frases ou os versos ou sei lá o que quer que sejam esses termos:
O corpo - Asa concreta de betume
Linguagem
Registra o lápis na caderninho do criado mudo, manuseado sonolentamente. Ô, pobre!
Pronto.
Acordei?
quinta-feira, 27 de julho de 2017
Ponderações coxas
" - eu mesmo sozinho conversei. Ser forte é parar quieto; permanecer."
(Guimarães Rosa)
A angústia tem elo com o efêmero, enquanto a tristeza concerne ao eterno.
A angústia é intermitente, quase concreta
e a tristeza carrega a duração consigo, se escondendo. Em disfarce.
A angústia vai e vem,
bate a porta que pensávamos fechada
terça-feira, 25 de julho de 2017
O bosque sagrado
Minha existência hoje talvez possa ser melhor definida por lágrimas. Comoção, vibração...
As letras não satisfazem o que gostaria de expressar. Duvido que algum dia também farão sentido quando me lembrar. De que nesta tarde um Força indefinível se dirigiu a mim e permitiu que eu a contemplasse numa pequena porcentagem. A parcela ideal e exata que meu ser - em constante aprendizado, erro e transição é capaz de suportar.
Mesmo assim, foi muito! E, mesmo passadas algumas horas, estou em reconstituição.
Talvez tenha sentido meus inúmeros términos e renascimentos de mãos dadas ali. Talvez tenha vislumbrado a Sinfonia entre a Vida e a Morte.
A Força daquela gigante, a inominável Benevolência que não ouso explicar porque não compreendo.
Tudo em mim vibra e se imanta. Se magnetiza.
Talvez também doa porque meu ser se lembre do que ainda não saiba em palavras.
Tudo vibra, tudo ressoa na ausência das palavras.
É tanto Tempo. Uma magnificência de encontros que a mim só é permitido ver com o sopro que me anima, com a luz que me possibilita estar em movimento e compreender intuitivamente.
Estive num Templo a céu aberto. Numa permanência vitalícia. Estive neste não sei onde que habita em mim e que me é ainda insuportável por conta de toda a Vida que existe.
Eu não sei de nada.
Eu só pude sentir. E ainda sinto por lágrimas. Por lágrimas que me banham me derramando em êxtase sobre minha pequena própria existência.
É difícil acreditar nesta Grandeza Inevitável. Justo meu eu habituado à pequenez. Justo meu eu acostumado a crer na fragilidade. Não coube em mim tanta Grandeza.
Eu ainda me derramo.
"Jupter et Sémélé" - Gustave Moreau
"O bosque sagrado" - Arnold Böcklin
As letras não satisfazem o que gostaria de expressar. Duvido que algum dia também farão sentido quando me lembrar. De que nesta tarde um Força indefinível se dirigiu a mim e permitiu que eu a contemplasse numa pequena porcentagem. A parcela ideal e exata que meu ser - em constante aprendizado, erro e transição é capaz de suportar.
Mesmo assim, foi muito! E, mesmo passadas algumas horas, estou em reconstituição.
Talvez tenha sentido meus inúmeros términos e renascimentos de mãos dadas ali. Talvez tenha vislumbrado a Sinfonia entre a Vida e a Morte.
A Força daquela gigante, a inominável Benevolência que não ouso explicar porque não compreendo.
Tudo em mim vibra e se imanta. Se magnetiza.
Talvez também doa porque meu ser se lembre do que ainda não saiba em palavras.
Tudo vibra, tudo ressoa na ausência das palavras.
É tanto Tempo. Uma magnificência de encontros que a mim só é permitido ver com o sopro que me anima, com a luz que me possibilita estar em movimento e compreender intuitivamente.
Estive num Templo a céu aberto. Numa permanência vitalícia. Estive neste não sei onde que habita em mim e que me é ainda insuportável por conta de toda a Vida que existe.
Eu não sei de nada.
Eu só pude sentir. E ainda sinto por lágrimas. Por lágrimas que me banham me derramando em êxtase sobre minha pequena própria existência.
É difícil acreditar nesta Grandeza Inevitável. Justo meu eu habituado à pequenez. Justo meu eu acostumado a crer na fragilidade. Não coube em mim tanta Grandeza.
Eu ainda me derramo.
"Jupter et Sémélé" - Gustave Moreau
"O bosque sagrado" - Arnold Böcklin
sexta-feira, 7 de julho de 2017
L’enfant assis sur le tombeau de son vent.
Je suis un enfant. Je suis toute seule, parce que je suis une fille.
Je regarde du côté, du côté droit tout bas. Puis, je bouge mon regard vers
mes soupirs et je le tourne.
Mon âme et sa toux. Silencieuse et profonde. La terre
sèche de mes aventures. Mes larmes la touchent et mon âme y reste.
Il ne me faut pas les ruines sans merci des ceux-là qui ne chantent. Mes ruines
gravitent là. Et puis rien.
Ce n’est pas non plus le coucher du soleil. Je sais pas quelle heure il est
dans le temps de noces des cieux. Du jaune, du noir, du gris, du rouge se
marient devant mes pensées.
Mon pied droit fait des cercles sur la surface de la terre qui empoudre mes
passades. Mais, je suis assise maintenant. Sur... sur...
Il y a du vent de mon deuil.
Mon front a sommeil. Et mon profil s’enchante de l’ambre que j’invente.
La douleur bâille et tout meurt tout le temps. Tout se défait ; c’est
le futur rien qui n’empêche pas la beauté.
L’éblouissement de mes ongles solitaires se touche. Au sein du soi-même.
Pas de pourquoi de m’hâter. Parce que je suis là en train d’être aimée de
la poudre.
Et fin.

Caspar David Friedrich, Evening Landscape with Two Men, 1830-35 (The Hermitage, St. Petersburg)
Caspar David Friedrich, Evening Landscape with Two Men, 1830-35 (The Hermitage, St. Petersburg)
quarta-feira, 10 de maio de 2017
Variações
Houve muito vento.
Vento. Vento forte. Ventania!
De uma ventania de bater janelas velhas e moças.
Foi como contemplar a força da natureza enquanto descontrole.
Pobres folhas tenras... pobre renda portuguesa... pobres folhas sem nomes... pobres folhas secas e bastardas.
E de ventania fez-se ciclone às vezes. Girando casas e vacas. Vitrolas, moscas desavisadas e também passarinhos.
Meu cata-vento manco. De pás inválidas.
Poeira. Terra ainda cobrem os olhos de fuligem
e os olhos fixos de braços cruzados.
É como contemplar a beleza das tempestades. A beleza dos furacões transtornados pelo efeito concomitante das brisas.
E o galo dos ventos não anuncia a hora.
E a rosa dos ventos fica zonza com tamanho barulho de sopro.
Houve muito vento.
Vento. Vento forte, vento havia.
E ainda há tempestades de papel de seda
com toda a escrita.
Vento. Vento forte. Ventania!
De uma ventania de bater janelas velhas e moças.
Foi como contemplar a força da natureza enquanto descontrole.
Pobres folhas tenras... pobre renda portuguesa... pobres folhas sem nomes... pobres folhas secas e bastardas.
E de ventania fez-se ciclone às vezes. Girando casas e vacas. Vitrolas, moscas desavisadas e também passarinhos.
Meu cata-vento manco. De pás inválidas.
Poeira. Terra ainda cobrem os olhos de fuligem
e os olhos fixos de braços cruzados.
É como contemplar a beleza das tempestades. A beleza dos furacões transtornados pelo efeito concomitante das brisas.
E o galo dos ventos não anuncia a hora.
E a rosa dos ventos fica zonza com tamanho barulho de sopro.
Houve muito vento.
Vento. Vento forte, vento havia.
E ainda há tempestades de papel de seda
com toda a escrita.
"Tempête de neige et mer" - William Turner
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