segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Saúde das vistas.


Amava com desespero.
de um amor semi-cerrado, inflamado e ardente.

Esfregava-lhe as pálpebras pra ver se o amor saía,
que chegou mesmo a esfregar com deus
lacrimejando!

Estava cega de amor
Em condenação ao grau máximo da miopia afetiva...

Um dia,
enquanto chovia sobre a íris devotada,
começou a enxergar pequeno e devagar.

Era o colírio de nuvens pagãs que iam lavando lentamente
o basso daquela visão amorosa antiga.

Hoje usa letras de contato
Em forma de versos.

E de longe parece curada
Enquanto que de perto...





terça-feira, 17 de outubro de 2017

Aspirante de Perseu.

Alguma coisa morre. e estou em pleno funeral de algo que me embalava.
Pêsames a meus sonhos impossíveis. Sucumbiram soterrados e por isso a alma se queda asmática.
Sou esquife, as flores, as velas que se extinguem e a solidão que entoa preces a ninguém.
A extrema-unção constante de todas as ilusões. 
Ponho os devaneios deitados, a coragem ajoelhada, 
A dor em riste.
Também o corpo se consola imóvel num sono.
Pois ando comovida com meu olhar 
e os lábios...

Algum amor morre e estou em pleno luto em todas as vezes do sorriso.


*********************************************************************

"Sobre a relação entre Perseu e a Medusa podemos aprender algo mais com Ovídio, lendo as Metamorfoses. Perseu vence uma nova batalham massacra a golpes de espada um monstro marinho, liberta Andrômeda. E agora trata de fazer o que faria qualquer um de nós, após uma façanha desse porte: vai lavar as mãos. Nesse caso, o problema está em onde deixar a cabeça da Medusa. E aqui Ovídio encontra versos (IV, 740-752) que me parecem extraordinários para expressar a delicadeza de alma necessária para ser um Perseu dominador de monstros: 'Para que a areia áspera não melindre a angüícoma cabeça, ameniza a dureza do solo com um ninho de folhas, recobre-o com algas que cresciam sob as águas, e nele deposita a Cabeça da Medusa, de face voltada para baixo'. A leveza de que Perseu é o herói não poderia ser melhor representada, segundo penso, do que por esse gesto de refrescante cortesia para com um ser monstruoso e tremendo, mas mesmo assim de certa forma perecível, frágil." (Ítalo Calvino em Seis propostas para o último milênio)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Hoje

"De amor em amor, vivo instantes verticais"
(Roland Barthes)

HOJE é outra vez dia para revisitar as ilusões em alto mar.
Imaginação tendendo sempre
a derivas

Há um nevoeiro sobre aquilo que sinto
e muita possibilidade de silêncio.

com as águas calmas como num rio
me balanço entre o que imagino e
o marulho fictício do que um dia predisse.

Marinheira sem remos, minhas mãos tocam apenas a água na sua versão fria.
Adiante barco solto

Aprendo agora  a estar entregue às gotas da chuva.
Bálsamo fosco que edulcora feridas, cortes, 
a imensidão indefesa.





segunda-feira, 25 de setembro de 2017

La Beauté







"La Beauté d'une nature merveilleuse, celle que précisement était le but de tous les efforts précédents.
D'abord, elle est éternelle. Elle ne connaît ni la naissance, ni la mort, ni accroissement, ni diminution. Ensuite, elle n'est pas belle pour une part, laide pour l'autre; belle pour ceci, laide pour cela.
Beauté qui ne se manifestera pas à lui sous forme de visage ou de main ou de rien qui participe au corps. Non plus que sous forme de discours ou de science; et bien en elle-même et par elle-même, coexistant toujours avec elle-même dans l'unicité d'une forme. Alors que toutes les autres choses qui sont belles, qui participent de cette Beauté en telle manière que leur naissance ou leur mort ne Lui apportent ni augmentation, ni diminution, ne l'affectent en rien."

(Socrate)




Doidos favoritos

"Algum velho da minha geração,
uns poucos doidos mansos, e quem mais?"

("Luar para Alphonsus" - Carlos Drummond de Andrade)




"Amanhã, vem-me entrevistar uma simpática inglesa meio louca [...] 
quinta-feira, vou tomar chá com uma portuguesa semi-louca, 
que tem medo de sair de casa; eu só gosto de gente louca, desses loucos mansos,
maníacos que a vida entristeceu, que ninguém atura, e que eu acho encantadores.
[...]
E as suas demonstrações são de maior compreensão que a da gente normal; 
e de uma certa categoria de amor, que os outros nem sonham.
Se eu não tivesse outras coisas a fazer, criava um salão de loucos
para conversar e fazer espírito, como no século 18."

(A lição do poema - Cecília Meireles) (carta LXXX)


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Fragmento - O Ás de Ouros

O Ás de Ouros

I Acto

I Cena

[...]
D. Dama (com movimento quasi de dansa) - Tens saudade do teu Santo... (examina a medalha, foco de luz na mão dela)
V. [Valete] O meu Santo... (quasi triste) ... que vivia tão alto...
(Contemplam-se profundamente)
D. - Tão alto! (abaixa a cabeça) - pausa - Eu também subo tão alto... Mas sempre volto à terra... A terra está aqui, em baixo dos nossos pés... E estou sempre entre a altura e a terra... Tudo sobe da terra: o circo, o meu amor... já viste essas plantas duras, audazes, bordadas de espinhos ? Essas plantas que não precisam de nada? que nascem da areia?
Meu amor é assim. Mas tem uma carne suave, que estremece por ti, nada o alimenta, e êle não morre.
V. - Chegará também a minha vez de falar. Como tu falas do chão, eu te falarei do nosso vôo, do movimento puro, da nossa presença instantânea sobre o perigo. Não foi para isso que longamente nos construímos? Já viste êsses pássaros que sobem, sobem, e de repente deixam de mover as asas, e caem para longe - quem sabe para onde? Há para os homens uma espécie de liberdade assim. Que deve ser a dos deuses, se existirem... Uma independência da terra.

Cecília Meireles



terça-feira, 19 de setembro de 2017

"Velho estilo"

Coisa que passas, como é teu nome?
De que inconstâncias foste gerada?
Abri meus braços para alcançar-te:
fechei meus braços - não tinha nada!

De ti só resta o que se consome.
Vais para a morte? Vais para a vida?
Tua presença nalguma parte
é já sinal da tua partida.

E eu disse a todos desse teu fado,
para esquecerem teu chamamento,
saberem que eras constituída
da errante essência da água e do vento.

Todos quiseram ter-te, malgrado
prenúncios tantos, tantas ameaças.
Grande, adorada desconhecida,
como é teu nome, coisa que passas?

Pisando terras e firmamento,
com um ar de exausta gente dormida,
abandonaram termos tranquilos,
portas abertas, áreas de vida.

E eu, que anunciei o acontecimento,
fui atrás deles, com insegurança,
dizendo que ia por dissuadi-los,
mas sendo a sua mesma esperança.

No ardente nível desta experiência,
sem rogo, lágrima nem protesto,
tudo se apaga, preso em sigilos:
mas no desenho do último gesto,

há mãos de amor para a tua ausência.
E esse é o vestígio que não some:
resto de todos, teu próprio resto.
- Coisa que passas, como é teu nome?

Cecília Meireles - Vaga música (1942)